domingo, 12 de maio de 2013

A conjugação do verbo AGIR.

Eu ajo, tu ages, ele age...nós agimos, vós agis, eles agem. Qualquer que seja a conjugação escolhida para ganhar uma definição, a primeira é a mais difícil. Uma reação bem comum entre os professores (e me incluo nessa lista) é de, ao primeiro questionamento de por que o fulaninho age assim, começar a discorrer praticamente uma tese para responder: porque a família é desestruturada, porque é carente, porque quer chamar atenção, porque ...porque...porque... É a síndrome do “PORQUE”!

Na última aula da pós recebemos o seguinte “tema”: elaborar um texto respondendo a questão: Por que ajo como ajo? A minha primeira resposta mental foi: Meu Deus, não sei! Isso porque sou uma pessoa extremamente imediatista. Vim pra casa pensando, pensei, pensei, pensei...e não cheguei a uma conclusão só, mas a várias.

Ajo como ajo por uma cadeia de coisas intercaladas e responsáveis pelo desenho do que sou. Desde criança quis ser professora, desde minhas primeiras lembranças adorava brincar com cadernos e fazer de conta que dava aula ao meu irmão, e tenho certeza que isso foi se desenhando, mesmo sem que eu percebesse, no decorrer da minha formação (não acadêmica, mas sim pessoal).

Sou de uma família simples do interior, fui criada fora de shoppings e aglomerações, fui criada na rua correndo, subindo em árvore, pulando amarelinha e andando de bicicleta, por isso enquanto adulta e profissional, sempre ofereci aos meus alunos o máximo de ludicidade possível, independente da idade. Como falta ludicidade no mundo. Essa infância que foi tão maravilhosa não pode se perder no tempo e no espaço, tem que ser dada de presente.

Como já escrevi no post anterior, sou extremamente musical. Não fico um minuto sem música, se puder. O que quero expressar e me faltam palavras, nunca, mas nunca mesmo faltam músicas. Isso pode ser porque minha família é tão musical quanto eu. Viajámos em uma época em que ter aparelho de som com cd no carro era luxo para poucos, e o toca fitas nem sempre funcionava, então cantávamos. Cantávamos estrada adentro... Parávamos, ríamos, e cantávamos de novo. O meu ser musical não é só meu, meu irmão tanto quanto é movido pela música. Está realizando, passo a passo, o sonho de ser músico e com isso realiza o meu também. Quanto orgulho.

Sou absurdamente crítica, muitas vezes até demais, sendo inclusive um tanto quanto impertinente. Sou filha de professora, sobrinha de professora, neta (emprestada) de professora. No decorrer de toda a minha vida vejo o descaso com a educação e os profissionais que a fazem, no peito e na raça, acontecer. Cresci vendo meu pai discursar sobre a situação política do país e compartilhando com sua indignação perante a mesma. Conforme a adolescência e Legião Urbana foram chegando, me tornei, de certo modo, mais crítica que ele. Se hoje articulo e exponho minhas ideias sempre que posso, é porque minha primeira Ágora foi o seio da minha família.

Há quase 11 anos ingressei na faculdade e comecei a trabalhar em sala de aula. Foi, acredito, a primeira realização da minha vida. Tive a sorte de entrar no mercado de trabalho fazendo o que eu tinha a certeza de ser a MINHA profissão. Os desafios eram tão, mas tão imensos que às vezes faltava até ar, mas lá estava minha mãe e sua maestria em lecionar, me dando socorro atrás de socorro. Quanto mais eu aplicava em minha prática pedagógica o que ela falava, mais fácil, tranquilo e compensador ficava meu trabalho. Com isso aprendi a sugar (no bom sentido) tudo que as pessoas mais experientes que eu e que – no meu ponto de vista – realizavam um bom trabalho tinham a me oferecer de informação e experiência. Tornei-me uma verdadeira esponja. Sou assim até hoje.

Tenho, além de tudo isso, autores, músicos, enfim, pensadores aos quais recorro há muito tempo e que são responsáveis por parte do meu agir. Paulo Freire, sem dúvida, tornou-se um deles muito cedo e muito da minha concepção de agir profissional vem dele. Assim como Rubem Alves. Como, pra mim, uma pessoa é um ser único independente de onde tenha que aplicar suas convicções, esses mestres do pensar se tornaram também, de certa forma, mentores pessoais.



Apesar de Durkheim conseguir definir o que penso em uma frase, mesmo escrevendo tanto não consegui responder o questionamento “Por que eu ajo como ajo” de forma sucinta. É que, pra mim, isso é impossível. Ajo como ajo por influências da minha criação, por influências das informações que recebi durante toda minha vida até agora, por influências das pessoas que considero exemplos, pela maturidade que é adquirida dia a dia e pela falta de maturidade que descubro que ainda tenho... Pelas escolhas que a soma de tudo isso me faz tomar o tempo todo e pelas responsabilidades que essas escolhas derrubam no meu colo.

Ajo como ajo porque em alguns momentos da minha vida alguém me falou que era certo, e em outros eu mesmo percebi. Isso não quer dizer que eu acerte o tempo todo. Se fosse assim, teria uma vida estagnada, porque o impulso de continuar vem das tentativas de acertar que acabaram não dando certo e trazendo uma nova empreitada.

E como não poderia deixar de ser, a música. Eu era um Lobisomem Juvenil (Legião Urbana) ilustra um pouco de por que ajo como ajo, mesmo esse agir sendo cheio de incertezas e contradições... “Qual foi a semente que você plantou?/Tudo acontece ao mesmo tempo/Nem eu mesmo sei direito/O que está acontecendo/E daí de hoje em diante/Todo dia vai ser o dia mais importante...”

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3 comentários :

  1. Eu nunca imaginei que você tivesse o dom de escrever dessa forma... Fazer de uma pergunta/questionamento uma riqueza de detalhes e riqueza de assuntos envolvendo uma história de vida e assim responder uma pergunta tão difícil. É muito difícil comentar as atitudes do dia-a-dia. Está se tornando uma discípula do Paulo Freire.
    Parabéns.
    Beijos, pai. Dilson

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  2. Poxa vida Tali, eu estou sem palavras...
    Desculpe, mas , como dizem os faces de plantão vou "roubartilhar" uma parte do teu texto que fala
    "Ajo como ajo porque em alguns momentos da minha vida alguém me falou que era certo, e em outros eu mesmo percebi. Isso não quer dizer que eu acerte o tempo todo. Se fosse assim, teria uma vida estagnada, porque o impulso de continuar vem das tentativas de acertar que acabaram não dando certo e trazendo uma nova empreitada."

    Perfeito minha amiga!!! seu blog deveria se chamar "suchi de letrinhas"... pois o suchi é feito com detalhes, com carinho, com sabedoria e com sabor que encontro aqui... ;)
    Beijos Prof. Kathy

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  3. Kathy, cada comentário seu me deixa muito feliz, muito mesmo. Porque sei que não é um comentário só pra agradar ou pra não deixar passar batido, sei que é um comentário de quem fala com propriedade. Fico muito honrada, de verdade.

    E a alegria de ver meu pai comentando é linda!!!

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