domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sob a sombra da estatueta.

Eu e meu esposo procuramos, todo ano, fazer uma maratona para assistir aos filmes que concorrem ao Oscar. Ele, cinéfilo de carteirinha, e eu, apenas uma admiradora da sétima arte que, por sua influência, acabei me apaixonando pelas telonas. 

*** Cuidado, SPOILERS no texto! ***

Esse ano, dos filmes que assistimos, três me chamaram muita atenção. Filmes contundentes que tratam de questões em parte delicadas, em parte estúpidas, mas com uma linha permeando todas: o poder. Não discorrerei aqui a resenha dos três filmes, pois não foi o que me motivou a escrever, mas sim a minha percepção. Em Sniper Americano vemos a busca pela afirmação de poder dos Estados Unidos. Em Selma - Uma luta pela igualdade, o poder aparece na sobreposição do branco ao negro, sua então superioridade e crueldade. E em O Jogo da Imitação vemos o poder personificado pela prepotência de uma sociedade machista e homofóbica. 

Sniper Americano traz a história do herói nacional Chris Kyle, que ficou eternizado como "A lenda" por ser o atirador mais letal da história americana, tendo atuado por anos no Iraque. O foco da abordagem é o peso psicológico que a guerra tem sobre aqueles que a vivem. A meu ver, fica clara a lavagem cerebral sofrida pela sociedade que internaliza a ~importância~ da guerra e a tem como uma ferramenta para "defender seu povo". Ufanismos bradados desde os primórdios da história norte-americana e, no contexto do filme, reforçados pelo então presidente Bush. A produção é, obviamente, bastante imparcial politicamente falando.

No decorrer do filme, minha empatia só crescia pelo personagem, um homem amável, dedicado, sensível, que sofria com a missão que a ele foi designada mas ao mesmo tempo não conseguia abandoná-la. Sofri com ele. Sofri com sua esposa. Sofri com o desfecho e a maneira estúpida que sua vida é ceifada. Imaginei a dor da família, a revolta, a agonia. 

No entanto, quando cheguei em casa e me coloquei a refletir, cheguei a um questionamento: por que sofri só por ele? Qual a diferença entre ele e todos aqueles que representavam o Iraque? Qual é a diferença entre o que cada um defende? Os dois lados não estão cheios de vítimas que são culturalmente instigadas a derramar sangue pela ideologia que lhes é pregada? Por que fiquei compadecida pelo soldado americano que foi, na verdade, um grande exterminador, e não fiquei compadecida pelo atirador iraquiano que era ex-atleta olímpico e também tinha vida, família, ideais e foi executado por estar do outro lado da guerra? Como somos manipulados, como é fácil perdermos o senso crítico quando o nosso emocional é tocado por algum motivo. Armadilha perigosa, a meu ver. Mesmo assim, bom filme, boa atuação de Bradley Cooper e, acima de tudo, boa reflexão sobre o inferno bélico a qual tantos povos são submetidos. 

Já em O Jogo da Imitação, o desdobramento da história conforme fui assistindo foi completamente surpreendente. Não gosto de ficar lendo sinopses sobre os filmes, prefiro me surpreender, e foi o que aconteceu. Não foi meu filme favorito, na verdade, meu preferido foi A Teoria de Tudo (que nem entrou nesse post), mas me deixou estarrecida. 

O filme conta a história de Alan Turing, interpretado por Benedict Cumberbatch, um gênio matemático que participou de um projeto secreto durante a Segunda Guerra Mundial que visava decodificar mensagens interceptadas do exército alemão. Enquanto sua trajetória como então pioneiro na computação seguia sendo ilustrada, flashes de sua vida cortavam a linearidade do filme trazendo a tona os motivos por Turing ser tão introspectivo. Ele foi apaixonado por Christopher, um menino que estudava em sua escola e que se tornou sua única companhia em meio ao terror do bullying sofrido durante sua vida escolar. Christopher, ainda na adolescência, morreu em decorrência de uma tuberculose, e essa tristeza seguiu com Alan até sua vida adulta. 

Durante os dois anos em que trabalhou junto a uma equipe de mentes brilhantes para o exército inglês, criou uma máquina que conseguiu decodificar as mensagens alemãs e, através de lógica e estatísticas, esse núcleo foi responsável pela vitória de muitas batalhas, inclusive a épica conquista da Normandia. 

Mas nada disso me surpreendeu. O enredo estava interessante, dinâmico, mas nada fora do normal. O que me deixou perplexa talvez pela minha ignorância ao fato é que, na década de 50 - mostrada no filme - o homossexualismo era considerado crime na Inglaterra. Sim, CRIME. Fiquei estarrecida. Turing foi condenado por "vícios impróprios", impedido de trabalhar e submetido a um tratamento a base de hormônios, descrito na fala do personagem como "castração química", como alternativa à prisão. De acordo com o filme, Alan suicidou-se em 1954, o que dadas as circunstâncias não foi nenhuma surpresa. Depois de assistir ao filme fui ler sobre ele e há divergências sobre sua morte, sendo levantada a hipótese de um acidente durante uma experiência. Independente de qual tenha sido a causa - apesar da hipótese do suicídio fazer, pra mim, bem mais sentido - fiquei chocada, revoltada, enojada. 

É claro que qualquer pessoa entende que se hoje a homofobia mata, há décadas atrás o quadro só poderia ser pior, mas condenar (judicialmente) uma pessoa por ser homossexual? Francamente. O governo britânico fez pedidos de desculpas públicos, reconheceu a importância de sua obra, se retratou...mas quantos Alans sofreram? Quantos anônimos foram PRESOS simplesmente por não estarem dentro do padrão então esperado? Quantos foram submetidos a um tratamento monstruoso? Pra mim esse viés que se deu nos últimos instantes do filme foi muito mais importante do que toda a trajetória do projeto bem sucedido que fez - de acordo com a história contada - com que a Alemanha perdesse a guerra. Como somos atrasados. Na década de 50 - e obviamente muito antes dela - atrocidades ocorriam devido a homofobia, e ainda hoje não conseguimos transpor essa barreira grotesca estipulada historicamente e vivida por tantos. Como é importante que obras reconhecidas pela academia - que é também conservadora e preconceituosa - tenham em pauta o retrato de personagens como Alan Turing e tantos outros que foram subjugados por serem apenas fieis a si mesmo. 

E por último, mas nem de longe menos importante, assistimos Selma - Uma luta pela igualdade. Dos três foi o que mais gostei, talvez por ter sempre admirado Martin Luther King mesmo sem ser grande conhecedora de sua biografia. O filme faz um recorte sobre uma atuação específica de Dr. King em Selma, onde lutou pelo direito dos negros votarem (direito esse que já era garantido na constituição mas especificamente no Sul, onde se passa a história, não se fazia valer). Logo no começo do filme Annie Lee, interpretada por Oprah Winfrey, tenta tornar-se apta a votar e tem seu direito negado por um funcionário prepotente que a impede sem exitar. Essa cena é a introdução de tudo que virá a se passar no enredo. 

O que mais me encantou no filme foi que Martin não foi tratado como um mártir, um semi Deus, um homem perfeito, virtuoso, etc. Ele foi tratado como homem. Um grande orador, um homem justo e sensível à situação precária da negritude, ao cerceamento de seus direitos, a coisificação de sua raça. Mas também trata do drama que sua militância impôs à sua família, ao terrorismo que muitas vezes sua esposa foi submetida, a infidelidade, ausência, distanciamento. Mostra sua incrível liderança, mas também seus momentos de dúvida e fraqueza. Além disso, com a sutil aparição de Malcolm X o filme mostra a divisão existente inclusive dentro do movimento negro. 

As marchas acontecidas entre as cidades de Selma e Montgomery são retratadas, e nelas a inacreditável truculência de policiais (representando o interesse do então governador do Alabama, George Wallace), e a persistência do movimento liderado por Doc., como era tratado Martin Luther King. A primeira marcha com civis locais foi monstruosamente atacada pelo corpo policial, que usou gás lacrimogênio e cassetetes para massacrar pessoas desarmadas e pacíficas. Depois disso King convocou a ajuda de todos os que se sensibilizassem com a causa. Sua fala foi transmitida pela televisão e surpreendentemente Selma se encheu com milhares de pessoas dispostas a participar do movimento. A segunda marcha foi muito maior, mas Martin a interrompeu. O filme dá a entender que ele suspeitou de alguma coisa e não quis insistir, não quis mais sangue derramado. No entanto, há outra versão que defende que ele não quis contrariar Frank M. Johnson, um dos poucos juízes simpatizantes à causa, que negou a permissão. Independente do motivo, nada aconteceu. Por fim, na terceira tentativa a marcha - autorizada judicialmente - de fato se realiza, sendo um marco para a garantia pacífica dos direitos civis. Apesar de ter sido pacífica, nem tudo obviamente são flores. Uma das ativistas, Viola Liuzzo, foi assassinada por membros da Ku Klux Klan horas depois do término da marcha. 

Como coadjuvante, o então presidente L. B. Johnson aparece tentando persuadir Martin Luther King a fazer parte de suas ações, ora, sua popularidade e aceitação eram inquestionáveis entre um imenso grupo de cidadãos americanos, mas os objetivos de Doc. não consideravam acordos, nem status, nem poder, nem sucesso...eram voltados ao seu povo, e quando não conseguiu mais resistir Johnson dobrou-se à vontade de tantos que era representada por um homem. Grande Martin. Grande herói. 

Não quis aqui racionalizar a arte, pois aprendi com um querido professor que isso não se faz. O que fiz foi expressar em palavras sentimentos que me foram comuns nos três filmes: tristeza em ver como a vida vale tão pouco diante de alguns. Seja mandando centenas de milhares de homens para matar e morrer, ou submetendo uma pessoa a reprimir seus sentimentos e desejos a ponto de enlouquecê-la, ou ainda culturalmente autorizar brancos a exterminarem negros como se fosse a ordem natural do universo.

Ao mesmo tempo, sinto uma satisfação imensa em assistir a três obras que não maquiam nada disso, mas expõem, despem, escancaram uma realidade que até hoje está presente, hora como lembrança, hora como notícias de tragédias advindas de preconceitos diversos, hora ainda por um sessar fogo que não chega nunca em guerras que envolvem, acima de tudo, intolerância e sede pelo poder. E as vidas se esvaem, escorrem pelas ruas junto com o sangue derramado no passado e no presente. 

Como lindamente narrou Oswaldo Montenegro:
"Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer..."

E ela floresceu, e floresceu muito, e que muitas mais pessoas sejam reconhecidas pela diferença que fazem no mundo, pela esperança que pregam com sua história, com a coragem de se dedicar aos outros e a verdade de si mesmas que trazem em seu coração. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Eu Pollyanno, tu Pollyannas, Ele Pollyanna...

Há muito tempo não escrevo. A razão? Um misto de acontecimentos e sentimentos. Terminei minha especialização e sua última etapa foi o TCC que, claro, me tomou um tempo absurdo. Além disso, em vários momentos pensei em escrever sobre várias coisas, mas não queria fazê-lo de maneira carregada e nem cheia de impulsos. Sei que cada linha escrita responsabiliza grandemente quem a escreveu.

Durante as eleições "escrevi" posts completos em minha cabeça enquanto assistia TV, tomava banho, ia ou vinha do trabalho, mas não queria escrever, não queria registrar. Escrevi muito e o tempo todo através do facebook, pois foi um momento em que me vi mergulhada numa necessidade avassaladora de discutir (no sentido de debater, refletir), e o blog não me oferece essa dinâmica. 

Mas chegou a hora de voltar pra cá, afinal, além de organizar minhas ideias escrevendo, é um exercício que priorizo: não deixar de escrever jamais. 

Não vim escrever sobre um assunto específico, mas sobre um sentimento que permeia tudo. O Amor. Quero escrever despretensiosamente, afinal, quem sou eu pra falar com propriedade sobre o que move o mundo? Não nego que a impulsionadora para essa reflexão foi a execução de Marco Cardoso na Indonésia. Não entrarei no mérito da condenação por dois motivos: sou terminantemente contra a pena de morte independente de qualquer coisa, e não é esse o assunto a que me propus falar. Mas foi a válvula pra que eu organizasse minhas reflexões.

Falar de amor não é clichê, é preciso. Tem faltado cada vez mais amor no mundo. Já escrevi essa frase algumas vezes no blog, a falo constantemente, mas continuarei batendo nessa tecla até enxergar uma mudança concreta nesse sentido.

Morin, em seu livro A minha esquerda - que já mencionei em algum momento aqui no blog - fala sobre a institucionalização da solidariedade. Nada mais é do que a falta de amor ao próximo, ao mundo, à natureza, à sociedade como um todo. Paramos de olhar (e muitas vezes me incluo nesse grupo) para uma sociedade macro, onde muitas coisas acontecem ao nosso redor. Não falo aqui em acabar com a fome no mundo, mas sim em atentar para quem está ao meu redor, alguém da família, um amigo, um conhecido, uma criança sozinha na rua...Situações corriqueiras que nos passam batidas porque não estamos olhando pra elas. Estamos cada vez mais preocupados com a sociedade micro, aquela onde só há espaço pra mim, meus desejos, minhas necessidades. Todo o resto é institucionalizado: para uma criança na rua - conselho tutelar, para uma mãe que precisa de ajuda - assistência social, para uma criança que não se enquadra em sua sala de aula - ritalina. Tudo isso, sem exceção, é falta de amor. Somada, clara, a diversos contextos, mas começa na falta de amor. 

Não acho que vivamos um cenário apocalíptico, ainda tenho um resquício de fé na humanidade, mas é passado o momento da reflexão. Durante as eleições de 2014 fiquei chocada com todo o cenário que se desenhou. Não criticarei aqui nenhum posicionamento, nem exporei o meu. Apenas defenderei o que tenho dito desde o começo do post: falta amor. Vi, enquanto observadora, ofensas aterradoras sendo esbravejadas a torto e a direita. Fui vítima delas em muitos debates. Procurei não proferir nenhuma, e tudo que eu escrevia, antes de publicar, lia novamente, para que não corresse o risco de cair no mesmo equívoco. Se mesmo assim o fiz, peço perdão. Mas o que me chocou, verdadeiramente, foi a erupção de discursos cheios de ódio, preconceito, rótulos...uma falta de amor pelo semelhante, pelo país, pela democracia. Eu mesmo já defendi aqui - e continuo defendendo - que temos uma democracia bastante distorcida e manipulada, mas é uma democracia. Quanto sangue foi derramado para que a tivéssemos! 

Em um outro momento vimos o episódio do goleiro Aranha, que em um jogo aqui mesmo em Porto Alegre foi gravemente ofendido. Quando a torcedora foi condenada, discursos diversos surgiram em sua defesa, assim como em defesa do seu ato: "estádio de futebol é assim mesmo", "Aranha tem complexo de coitadinho", "a menina não é racista, ela tem amigos negros, já até namorou um negro"...e por aí vai. Como assim? É preocupante a onda crescente e retrógrada do "preconceito é coisa da cabeça do negro, a sociedade não é mais assim". É sim! Vivemos em uma sociedade extremamente racista, preconceituosa e marginalizadora. A própria RBS - afiliada da rede Glogo no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina - carrega através de muitos colaboradores da emissora esse mesmo discurso tão carente de ética, civilidade, honestidade. O próprio Pelé, em um discurso quase esclerosado, toma posse de uma fala extremamente racista e dissimulatória falando do caso, e diz que quanto mais se "dá bola pra isso", pior fica. Quer mais falta de amor ao próximo que isso?

Ainda no final de 2014 - que ano - tivemos o triste episódio envolvendo Bolsonaro e Maria do Rosário. Episódio esse que, talvez, tenha me chocado mais do que todos os outros. Explico: Muitas, mas muitas pessoas simplesmente blindaram toda sua capacidade sensorial para o que estava sendo dito - em outras palavras, o Deputado Jair Bolsonaro estava a defender que algumas mulheres merecem SIM serem estupradas, só não a Maria do Rosário - levando o triste episódio para a discussão esquerda X direita. Inacreditável. Não interessa o que foi dito, de que maneira foi dito, QUAL O TEOR DO QUE FOI DITO. O que interessa é que Maria do Rosário é petista, então se eu sou de direita, apoio e argumento justificando o posicionamento de Bolsonaro, porque ele é direita e me representa. E ainda digo que hoje em dia, por conta de tanto ativismo aqui e ali, não se pode dizer mais nada que já é machismo/racismo/homofobia...quanta frescura. 

Quer mais falta de amor que isso? Em troca da defesa de um posicionamento político que, convenhamos, nem faz tanto sentido assim, vende-se a alma pro diabo e se defende a negligência, a violência, a guerra ao próximo. 

Por que escrever sobre tudo isso agora, que já passou? Porque o caso da execução na Indonésia não só do brasileiro mas de todos os outros fomentou a necessidade de exteriorizar. Nas férias assisti o filme "Os últimos passos de um homem" (título original: Dead man walking), estrelado brilhantemente por Sean Penn e Susan Sarandon. Ele, como tantas outras produções americanas, traz a história de alguém que espera a execução (Sean Penn) e, nesse caso, da freira que é conselheira espiritual (Susan Sarandon). O filme trata de um crime bárbaro e mostra duas famílias atormentadas. Assisti o filme com minha mãe, que tem o mesmo posicionamento que eu com relação a isso, e enquanto conversávamos o principal ponto de análise foi: que tipo de alívio ou compensação a morte trouxe para as famílias? Nenhum. Porque continuarão atormentadas e despedaçadas enquanto a perda de seus entes não for superada. Qual é o exemplo que a Indonésia quer pregar? Que não se deve traficar? Tudo bem, mas porque não condenar, extraditar, multar ou o que quer que seja? E executando o traficante o tráfico acaba? Claro que não, porque por trás de meros laranjas existem cartéis mais fortes que o estado que são praticamente inatingíveis. Logo, qual é a justificativa para o estado tirar a vida de quem quer que seja? Nenhuma. Considerando vários pontos de vista, encarando o assunto por vários ângulos, em nenhum a execução se justifica. Ninguém, em situação nenhuma, pode ter a autonomia para tirar a vida de outra pessoa, principalmente de maneira legal, autorizada pelo estado e sendo bem vista por grande parte da população.

Mais triste ainda é ver/ouvir comentários do tipo: isso é certo, vamos mandar mais alguns pra lá...não concorda, leva pra casa...e por aí vai. São delírios quase inacreditáveis vindos de cidadãos brasileiros, cuja ditadura, de tão recente, ainda deixa cheiro de sangue nos porões, cuja guerra às drogas, de tão equivocada, deixa um rio de sangue nas favelas/periferias de vários Patricks. Cadê a memória? Cadê o senso humanitário? Cadê o amor? 

Por tudo isso escrevi, pra exteriorizar todo o lamento que tenho pelos fatos supracitados assim como por tantos outros que são noticiados, quase que diariamente, mostrando o quanto o mundo está sedento de amor. Espero que 2015 traga um pouco mais de paz, de boas ações, de notícias felizes. Não é que eu seja meio Pollyanna, mas é preciso ao menos acreditar que podemos ter dias mais bonitos!


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Nem só de euforia vive o homem...

Devido a vários comentários de todos os cunhos que tenho visto em minha timeline, resolvi manifestar minha opinião sobre o que aconteceu ontem, 08 de Julho de 2014, no Mineirão. Farei isso no blog porque é onde costumo derramar meus pensamentos, e farei de maneira bastante tranquila, pois tive a mesma opinião com relação a esse grandioso evento desde 2007, por isso adjetivos como hipócrita, coxinha, e tantos outros, não me atingem. A carapuça não me serve.

Como eu disse, desde o anúncio de que a Copa do Mundo de 2014 seria no Brasil, lá em 2007, senti um frio na espinha só de pensar em tudo que poderia acontecer – e se concretizou. Pensava, com muito pesar, nos projetos superfaturados, nos desvios de dinheiro, na promoção de cartolas e figurões, nas campanhas políticas pautadas no futebol, na euforia com a festa e consequentemente o esquecimento dos desmandos, e assim por diante.

Com a aproximação do mundial, na Copa das Confederações, vi o povo se mobilizar de maneira que nunca tinha visto antes. Sim, já tinha acontecido. Não ignoro aqui tantos movimentos sociais – principalmente encabeçados pela juventude – que já fizeram parte da nossa história, mas os eventos de Junho de 2013 foram os primeiros que pude participar, e não só ler em folhetins. Neles pude ver a falta de preparação do país representada pela truculência e terrorismo do Estado personificado na brigada militar gaúcha e nas polícias militares de tantos outros estados.

Vi pessoas sendo retiradas de seus lares da pior maneira possível, ficando atiradas à sua própria sorte, mais marginalizadas e subjulgadas do que nunca. Vi trabalhadores perderem a vida nas obras dos tão esperados estádios padrão FIFA, e ficar por isso mesmo. Vi uma imprensa extremamente parcial, a exceção do canal ESPN, esquecendo totalmente do seu papel informativo para preocupar-se, cada vez mais, em tomar partido e garantir seu pedaço de bolo na festinha da CBF/FIFA e de tantos outros.

Quando o mundial se aproximou ainda mais, vislumbrei, temerosamente, o impacto negativo desse mundial na minha vida, considerando que sou uma profissional comissionada e, quando não trabalho, não ganho. Não, não estou no time dos que clamaram por feriado. Bem pelo contrário. Sinto não poder contar com a isenção das minhas contas durante esse mês assim como a FIFA é isenta de seus impostos. Mas como dizem, não é pra quem quer, é só pra quem pode, né não?

No entanto, vi pessoas que criticaram fervorosamente a Copa do Mundo pintando a cara de verde e amarelo, colocando bandeira nas costas e cantando: “eeeeeeeeeeeeeeu, sou brasileeeeeeeeeeeeiro, com muito orguuuuuuuuuuulho, com muito amooooooooooooor...”. Desculpem-me, mas isso sim é me soa como hipocrisia.

Não tenho absolutamente nada contra quem torce pela seleção, muito pelo contrário. Venho de uma família que sofre – e hoje provavelmente está despedaçada – com a seleção e torce com todo amor por ela. Mas também exijo que o meu posicionamento contrário seja respeitado. No entanto, essa postura volúvel de “vou de acordo com a maré” é muito, mas muito triste.

O tal do “Maria vai com as outras” é um elemento muito perigoso na sociedade. Ele protestou quando achou que era descolado estar em protestos, aí quando a galera fez feriado e se reuniu pra beber cerveja nos jogos ele também estava lá, como não? Mas depois da derrota ele julgou que seria super maneiro sair vomitando ofensa aos jogadores, rasgando bandeiras e fazendo baderna. Que patriota é esse? Patriota sou eu, que tento fazer a minha parte pro meu país caminhar.

Essa reação não diz respeito ao futebol, mas sim, a uma patologia social na qual estamos imersos. O povo foi quem mais sofreu com a preparação do mundial. Mundial esse que deixou o povo fora dos estádios, porque esse povo – o brasileiro trabalhador – não podia pagar o que a dona FIFA queria receber. A massa brasileira só viu a banda passar, sem poder dançar sua música. Essa mesma sociedade opressora coloca o futebol como o grande salvador da pátria, tornando-o o algoz do mundo quando tem um resultado negativo.

Nunca, em momento algum, me coloquei contra os atletas. Eles estão na ponta de um iceberg que é muito, mas muito profundo. Mas acho surreal o terrorismo feito com essas criaturas. Não vou aqui tecer críticas sobre o futebol, pois desse não entendo. Mas assim como em tantos outros âmbitos, os medalhões com seu anseio pelo poder minam cada vez mais o futebol, e deixam a responsabilidade nas mãos de meninos. Sim, são meninos correndo atrás do seu sonho de defender a canarinho. Um exemplo é o menino David Luiz, que tem se mostrado generoso com seus fãs e companheiros de seleção e profissão, e dono de uma postura esportiva exemplar. Esse menino trazia em suas costas – e isso ficou evidente em uma entrevista que concedeu ao término da partida – a responsabilidade de “trazer alegria pro seu povo, que jásofre tanto...”. Fiquei sem palavras ao ver a dor desse garoto ao pedir desculpas para a torcida e, visivelmente despedaçado, se apropriar de uma responsabilidade que não é dele. Eu jamais teria coragem de vaiar esses atletas como foram vaiados, nem de crucificá-los como estão sendo crucificados.

Te acalma menino, não leva o mundo nas costas. Ele é pesado demais!

Senti vergonha não por uma derrota histórica, mas sim por ver a seleção adversária aplaudindo e empurrando a brasileira para frente em sinal de respeito e admiração, enquanto a elite brasileira a vaiava covardemente. O patriotismo ocasional foi-se embora da mesma maneira que veio. Levado pelo vento do nosso tão tropical inverno.

Depois quem é que vai dizer que futebol não se confunde com política? Que futebol não trata dos problemas sociais? Não me venham com bitolices e senso comum.

O Brasil não estava pronto para realizar o mundial. E o povo brasileiro não está pronto para perder, mesmo perdendo tanto o tempo todo.


Tudo isso está amarrado, todos os fatos se relacionam entre si. E o não seria o hexa que traria a resposta! 


sexta-feira, 28 de março de 2014

Lavar a roupa, sinônimo de cala a boca!

Minha postagem da semana seria sobre o trágico fato ocorrido na UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina, envolvendo a polícia federal e um grupo da comunidade acadêmica. No entanto, essa mesma discussão me trouxe ao tópico escolhido: O machismo, essa cultura endêmica e que por vezes parece intransponível. Não, minha gente, não é clichê.

Um amigo postou em sua timeline no Facebook um comentário sobre o acontecido, eu postei minha opinião, discordamos de maneira amistosa e tranquila, citando Voltaire. 

No mesmo instante, outra pessoa entrou na conversa de maneira agressiva, falando que quem estava defendendo os estudantes "era tudo vagabundo e maconheiro", e que a polícia tinha mais é que "descer o cacete". Eu, como pessoa educada que sou, não respondi no mesmo tom e continuei a conversa expondo a minha opinião, postando vídeos e notícias sobre o acontecido...etc. 

Uma quarta pessoa entrou na conversa manifestando sua desconfiança quanto ao acontecido, dizendo que queria ter estado lá para opinar com propriedade, mas que acha a discussão válida. 

Meu esposo, como defensor fervoroso da desmilitarização da polícia, trouxe suas opiniões que tampouco foram respeitadas pelo rapaz dos termos pejorativos. 

Despedi-me do tópico para não perder as estribeiras, mas não consegui sair com o surgimento de uma sexta pessoa. Sua entrada na conversa foi da seguinte maneira: "Diego chiquinho.tu só podia ser colorido mesmo. Deve ser do mesmo naipe destes maconheiros disfarçado de estudante , tirando lugar de quem quer estudar. Porrada neles! ! Vagabundos!!!"

E a sequência foi um espetáculo de preconceito e ignorância. O post seguinte dessa sexta pessoa foi: "Tali ventura. Vai lavar uma roupa faz favor."

Pasmei. Não consegui responder. 

Meu esposo, cujo nome no Facebook é Diego Chiquinho, fez dois posts seguidos:

·         “Como diria a Daenerys Targaryen: "Me chamar de mulher deveria ser uma ofensa? Eu responderia na mesma moeda se o considerasse um homem"”;
·         "Talvez possamos levar o comentário machista e a curtida para a delegacia de crimes digitais. Já que amam tanto a policia, podem receber uma visita dela. Seria um dia memorável pra vcs."



Depois disso o rapaz dos termos pejorativos apagou TODOS os seus posts no tópico, e eu, de maneira fraca e instintiva respondi de maneira grosseira o comentário machista... E a coisa definitivamente descambou. 

Fiquei culpando e criticando a mim mesmo: “Deveria ter ficado quieta, pra quê responder no mesmo nível? Pra quê se expor dessa maneira? Por que não guardar a língua bem dentro da boca? Pra que causar desconforto em uma timeline que nem é sua??????

Ao mesmo tempo chacoalhei a cabeça e pensei: “O que é isso mulher, tá doida é?” Se fizesse isso, qual seria a diferença entre a minha atitude e a da mulher que é espancada e não denuncia o parceiro? Que é “encoxada” no ônibus/metrô, mas guarda pra si por vergonha? Que é subjulgada e internaliza, achando que ela é a causadora de todos os males do mundo? NENHUMA!


Triste. Triste. Triste. 



Dificilmente perco as estribeiras em um debate, sempre direcionando-o para os fatos em questão. Mas fui ofendida de maneira tão baixa e asquerosa que não consegui. Sou cheia de fraquezas, assim como qualquer ser humano, e a diminuição da minha condição enquanto mulher com certeza é uma delas, talvez, até, a mais forte. 

Queria transcrever todo o debate aqui, no entanto, com posts apagados, o sentido se perde. 

Mas queria, especialmente com esse post, socializar a minha indignação com esse machismo infindável que assola nossa sociedade, onde um homem que não consegue (ou não quer) argumentar com uma mulher que, claramente, é mais esclarecida que ele e por isso o deixa sem argumentos, a manda "lavar a roupa" como uma espécie de "cala a boca".

Pois digo que SIM, lavo muita roupa, esquento a barriga no fogão, dirijo a vassoura na faxina, etc etc etc...e ao mesmo tempo ocupo um excelente cargo na empresa em que trabalho tendo meu salário equiparado ao de muito barbado por aí, curso, com imensa alegria, minha especialização, me dedico ao meu esposo que é um dos homens mais gentis e doces que conheci em toda minha vida, e tem uma briga travada contra toda a nojeira que permeia qualquer tipo de preconceito dessa nossa sociedade doente. Dedico-me ao meu blog como forma de expressão e comunicação. Sou multifuncional, com muito orgulho. 

Então não venha vomitar seu machismo pra cima de mim!

E quero também me retratar com o meu querido amigo, cujo post e perfil foram invadidos por uma discussão baixa e mal educada da qual participei. Jamais foi minha intenção. Realmente sinto muito. 

Termino, então, a noite de hoje, quase 2h da manhã, com a sensação de que a sociedade não evolui, a cultura não muda, e que a mulher - ao contrário do que venho tentando me convencer - está muito longe de ser respeitada quando resolve ter voz.  


sábado, 22 de março de 2014

"Era só mais uma...Cláudia!"

Não quero, de verdade, ser sensacionalista ao escrever, por isso colocarei a minha mais profunda reflexão em pauta.

Desde as manifestações de Junho/13 venho narrando os excessos da polícia militar que presenciei ou que apenas me fiz sabedora, no entanto, não tenho base teórica para discursar sobre isso, não conheço a corporação, não sei de suas ideologias, não tenho como medir se os bandidos de farda são maioria ou, talvez, uma minoria que se destaca...

No entanto, não posso e nem devo, como cidadã, usar dessa ignorância para calar a angústia que sinto cada vez que é noticiado algo grotesco e violento envolvendo esta corporação. É claro que, com isso, falo do que todo mundo já falou essa semana: o caso de Cláudia da Silva Ferreira, uma mulher negra, pobre, trabalhadora e moradora de periferia. Convenhamos: dos quatro adjetivos usados para descrevê-la, três deles – no mínimo – se encaixam em muitos perfis “socorridos” pela polícia militar.

Confesso, não assisti ao vídeo postado milhares de vezes, onde aparecia Cláudia sendo arrastada. Não consegui. Não consegui. Não consegui!!! É uma coisa tão (...) – não encontro uma palavra sequer que defina – que foi além dos meus limites.

Justamente por isso me pergunto como alguém pode ter uma atitude dessa: atentem, se uma pessoa não consegue nem assistir um vídeo de tão grotesco o fato, como pessoas conseguem executar o tal fato.

O assassinato (não, não tem outro nome) de Cláudia foi só mais um em um mar de sangue que banha a corporação supracitada. E a justificativa da prisão: foram presos por SOCORRER A VÍTIMA! Isso, certamente, é subestimar a inteligência das pessoas. Sabe a impressão que dá? Que a polícia militar é a instrumentalização da “higienização social” almejada pelos cartolas/magnatas/políticos do Brasil para mostrar um país que não existe no Mundial que está quase chegando.

Ainda por cima, como se tudo isso não bastasse, li um post da página Geração Incrível, no Facebook, onde a chamada de atenção é a desumanização dessas vítimas.

                               “Mulher arrastada, mulher arrastada, mulher, mulher, moradora, moradora, moradora, morta, morta, arrastada, arrastada, arrastada, arrastada. Filha de arrastada, enterro de arrastada, viúvo de mulher, mulher arrastada.”

A mulher tem nome, tem identidade, tem família, tem história... A maneira que Cláudia é citada – assim como tantos outros – já deixa claro o quanto essa violência institucionalizada está se tornando comum, corriqueira... Triste!

O mais triste ainda é que os casos que são noticiados com tanto fervor – e, por que não, sensacionalismo – são apenas os que, por “descuido ou coincidência infeliz”, vazam do silêncio e da sordidez. Um exemplo foi o caso do pedreiro Amarildo. Por que foi tão investigado? Porque de alguma forma ele se tornou expressivo em meio a um período fervoroso de reivindicações, e ficou internacionalmente famoso. Ou seja, foi uma pressão mundial pra descobrir onde estava o homem que era pobre, negro, morador de periferia e, adivinhem? Foi assassinado pela polícia.

Se Cláudia não tivesse sido filmada, POR ACASO, sendo arrastada da maneira que foi, esse fato escabroso teria chegado a mídia? O depoimento da família, afirmando que ela foi assassinada, teria sido levado em consideração? A família teria se quer sido ouvida? Quantas Cláudias e Amarildos são vítimas TODOS OS DIAS? Quando isso terá fim?

Só para encerrar, um curto relato: estivemos, meu esposo e eu, de férias em Montevideo – Uruguai no início do ano. Estávamos tomando chimarrão em uma praça quando vimos duas mulheres, também tomando chimarrão, de farda. Olhamos-nos e falamos: “não é possível que sejam policiais”. E eram. Com as bicicletas encostadas nas árvores, fazendo policiamento. Um lugar em que nos sentimos mais seguros do que qualquer outro que tenhamos frequentado/morado/conhecido no Brasil.

Violência gera violência. E quando essa violência é representada por uma instituição pública, altamente armada, com aval do governo e cobertura da mídia para sustentar suas barbáries, não consigo imaginar quantas Cláudias ainda estão por vir, que serão veladas dolorosamente e enterradas na indulgência da justiça.






domingo, 16 de março de 2014

Depois de um novo hiato...

Depois de um longo hiato, mais de seis meses, senti muita vontade de voltar a escrever. Explico: refletindo, na nova cadeira da especialização, sobre a importância de escrever, me perguntei por que abri mão de um instrumento que tanto gosto – o blog – e deixei de expressar o que acho, sinto, preciso dizer! Tudo isso através da escrita, ferramenta de comunicação que sou apaixonada. 

Por isso voltei.

Às vésperas do meu trabalho de conclusão do curso e com uma galáxia inteira de possibilidades perpassando meus pensamentos, passei os olhos por cima de tudo que já escrevi e percebo o quão clara é minha obrigação!
Sim, porque pesquisar a escola como gerenciadora de conflitos em um mundo em que o jovem é um joguete (principalmente) da violência institucionalizada que vivemos, é minha obrigação.
·         Obrigação de devolver alguma contribuição às instituições que tanto contribuíram para minha formação e me possibilitaram vivenciar uma multiplicidade de situações – dramáticas, quase todas;
·         Obrigação de poder fomentar alguma discussão, mínima que seja, e chamar a atenção para o jovem negligenciado pelo preconceito de classes que o afasta de suas oportunidades, desperdiçando seu talento e o marginalizando;
·         Obrigação de tentar contribuir com jovens advindos de famílias totalmente desestruturadas, que assim o são porque, em algum momento, foram esquecidas pela sociedade;
·         Obrigação de ser fiel aos meus princípios, construídos de maneira teórica e intuitiva, que desenham o que sou e como me disponho a viver.


Agora, com as coisas um pouco mais claras, vamô que vamô!!!


domingo, 18 de agosto de 2013

A violência não pode ser banalizada!

Depois de quase dois meses sem escrever, volto. A pausa se deu por um conjunto de motivos: falta de tempo, porque a rotina alucinada nos esmaga; trabalhos da especialização, que também tem me consumido bastante, mas principalmente a falta do que escrever. Não que faltem assuntos, eles são abundantes sempre. Mas faltou o ímpeto, aquela alavanca que me faz colocar o notebook no colo, estralar os dedos e "mãos à obra".

Após as manifestações me deparei com uma cenário que, de certa forma, me preocupou - pra não dizer que entristeceu. Vivo logada no facebook, mantenho, através dele, contato com amigos e familiares que estão distantes, acompanho suas vidas e compartilho um pouco da minha, mas vi nesse período intenso de manifestações, as timelines da vida se tornarem verdadeiras arenas. Uma agressividade surgiu dessa disputa por foco e poder que, a meu ver, ultrapassou todo e qualquer limite aceitável no calor das disputas políticas. 

Pensando em tudo isso, refletindo, questionando o que vi, li, e provavelmente até postei, cheguei a uma conclusão - que não é necessariamente conclusão porque com o passar do tempo vemos que nada é tão definitivo - FALTA AMOR!

Falta amor das pessoas umas pelas outras, falta amor do estado pela população, falta amor - muitas vezes - da população pelo país, falta amor pela educação, falta amor pela família, falta amor pela vida. A falta de amor acarreta em desrespeito, e foi isso que vi. Preferi me retirar desse ambiente de gladiadores de "direita" e "esquerda" e ficar nos bastidores conversando, mediando e - sempre - refletindo. 

No entanto... 

Ontem, ao voltar da PUC com meu esposo, o ônibus em que estávamos foi parado em um pedaço do trajeto onde o tráfico e a violência de maneira geral são bastante presentes. Um policial entrou no veículo e ordenou que todos os homens saíssem com seus pertences, e que as mulheres permanecessem onde estavam e abrissem suas bolsas. Meu esposo e todos os outros saíram tranquilamente em direção a calçada. Enquanto isso uma policial entrou e revistou os pertences das mulheres. Ela agradeceu, desejou boa noite e bom descanso a todas. Até aí tudo bem, minha única apreensão era a de ser assaltada ou sabe-se lá o que, enfim, nessas horas tudo passa pela cabeça de uma pessoa medrosa - como eu. 

Mas quando olhei para fora fui tomada por um sentimento misto de asco e decepção. Todos os homens estavam emparedados como marginais, sendo revistados da maneira mais humilhante. Lógico que se eu tivesse visto homens que eu não conhecia teria ficado apenas chocada e decepcionada com uma abordagem desnecessária, um abuso de poder. Mas quando vi meu esposo, que estava voltando pra casa depois da aula conversando sobre a mesma e tudo mais - sendo tratado como um bandido, a fúria foi imediata. 

Enquanto os homens ainda estavam fora do ônibus, duas moças conversavam sobre o porquê dessa abordagem, e uma delas disse que há uma semana o irmão tinha sido assaltado exatamente no local onde estávamos parados. Nesse momento a cobradora da linha T1 interviu bastante irritada quase gritando que tem que se fazer mesmo porque semana passada foi pego um "colega nosso" com droga no ônibus. Nesse momento não consegui me conter. Disse que meu colega não era, e ela respondeu: "é sim, é da PUC". Ou seja, todos os milhares de alunos da PUC carregam, ou vendem, ou usam, ou sei lá eu o que...drogas! Achei melhor não falar mais nada devido a tensão do momento e a minha provável falta de filtro somada ao nervosismo. 

Os homens entraram no ônibus, o percurso seguiu, mas mesmo depois de ter chegado em casa não consegui digerir. Não deu. Por que não orientar os homens para abrirem suas mochilas? Por que não dar a eles o mesmo tratamento dado as mulheres que ficaram no interior do veículo? Por que uma truculência seguida de humilhação desmedida? Por que essa necessidade (desnecessária) de mostrar serviço? Mostrar a quem? Por que não agir com ênfase assim no núcleo do problema, que é no interior daquele bairro e de tantos outros onde o tráfico corre solto? O que fariam se encontrassem uma quantidade irrisória de qualquer coisa em alguma mochila, considerando que porte não é crime? Não estou dizendo, com isso, que é certo ou errado, mas apenas que de acordo com a nossa legislação, porte não é crime. 

Com tudo isso lembrei de um discurso do professor Vladimir Safatle, "A democracia para além do estado democrático de direito", que meu esposo até compartilhou um dia desses em suas incansáveis críticas à Brigada Militar, mas que me foi apresentado através de um dos professores da especialização que me inspira grande confiança e segurança para esse tipo de debate por ter em sua fala sempre a relação (ou falta de)  entre Direito X Justiça. Enfim, em seu discurso o professor Safatle expressa que a democracia não deve depender de instituições que funcionam mal, e, pra mim, a brigada/polícia militar na forma com que se apresenta hoje é uma das instituições mais falhas da nossa sociedade. 

Hoje, coincidentemente, o tema da aula foi bullying e violência escolar, e em um dado momento socializei o fatídico acontecimento da noite anterior. A primeira coisa que ouvi foi: "garanto que se estivesse do outro lado apoiaria a brigada". QUE LADO? Pra mim existem dois lados: o opressor e o oprimido. Se um dia me coloquei como opressora foi de maneira inconsciente, e me policio para que isso não aconteça, não apoio de maneira alguma nenhum tipo de opressão, truculência, chamadas de atenção sem contextualização, enfim, fiquei impressionada com o comentário. No mesmo assunto surgiram outros comentários do tipo "se você tiver um filho e ele sofrer bullying você exigirá uma atitude da escola, mas duvido que se for ele a praticar você admitirá uma intervenção da mesma maneira". Pois respondo aqui que SIM, admitirei. Até porque não tem gostar ou não gostar de uma ou outra medida, a escola precisa quebrar essa corrente de violência trabalhando o ser social com seus estudantes e suas respectivas famílias. Até porque, se o meu filho (a) se tornar um adulto truculento e violento, sem limites e noções, não caberá a mim gostar ou não, por exemplo, que ele seja preso. Se o mesmo fizer alguma coisa que, de acordo com a legislação, o leve a isso, que poder de decisão baseado no "gostar" ou "não gostar" eu terei? Nenhum. Quem disse que educar é fácil? Quem disse que romper paradigmas é fácil? Quem disse que reforma social é fácil? O papel de educar e orientar é sim da família, mas sejamos sinceros na análise da nossa realidade: muitas famílias não tem condições de dar essa orientação, então ela precisa partir da escola. As iniciativas precisam ser da escola para que um dia o quadro mude, para que esse estudante que foi beneficiado com a interferência seja um pai ou uma mãe mais presente amanhã.

Disse ontem, disse hoje pela manhã e continuo dizendo: a violência está institucionalizada e, por mais que isso seja gravíssimo, não é o mais preocupante. O mais sério é que as pessoas estão cada vez mais acostumando-se com isso, achando normal, achando que faz parte...Não é normal. Não é correto. Não é o caminho.

Por fim eu, que sempre fui e continuo sendo tão contra a generalização, não quero aqui generalizar e dizer que todos os policiais são o retrato da truculência e da opressão. No post Não é por 0,20 centavos fiz menção à Coronel Claudia Romualdo que, exercendo plenamente sua cidadania, viabilizou uma manifestação tranquila e pacífica em Belo Horizonte. 

Mas quero sim chamar atenção para um grupo de maus profissionais que infelizmente ganha o foco pelas atrocidades cometidas. 

Para terminar tinha pensado em colocar a letra da música Fix You, do Coldplay, que ouvi hoje a caminho da aula pensando o quanto a primeira estrofe tinha relação com como eu estava me sentindo - "When you try your best, but you don't succeed / When you get what you want, but not what you need / When you feel so tired, but you can't sleep / Stuck in reverse...", mas tem outra que simplesmente não pode passar batida hoje, em especial. E com essa me despeço!


"Dizem que ela existe pra ajudar!
Dizem que ela existe pra proteger!
Eu sei que ela pode te parar!
Eu sei que ela pode te prender!

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa de polícia...

Dizem pra você obedecer!
Dizem pra você responder!
Dizem pra você cooperar!
Dizem pra você respeitar!

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa de polícia..."