sexta-feira, 28 de março de 2014

Lavar a roupa, sinônimo de cala a boca!

Minha postagem da semana seria sobre o trágico fato ocorrido na UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina, envolvendo a polícia federal e um grupo da comunidade acadêmica. No entanto, essa mesma discussão me trouxe ao tópico escolhido: O machismo, essa cultura endêmica e que por vezes parece intransponível. Não, minha gente, não é clichê.

Um amigo postou em sua timeline no Facebook um comentário sobre o acontecido, eu postei minha opinião, discordamos de maneira amistosa e tranquila, citando Voltaire. 

No mesmo instante, outra pessoa entrou na conversa de maneira agressiva, falando que quem estava defendendo os estudantes "era tudo vagabundo e maconheiro", e que a polícia tinha mais é que "descer o cacete". Eu, como pessoa educada que sou, não respondi no mesmo tom e continuei a conversa expondo a minha opinião, postando vídeos e notícias sobre o acontecido...etc. 

Uma quarta pessoa entrou na conversa manifestando sua desconfiança quanto ao acontecido, dizendo que queria ter estado lá para opinar com propriedade, mas que acha a discussão válida. 

Meu esposo, como defensor fervoroso da desmilitarização da polícia, trouxe suas opiniões que tampouco foram respeitadas pelo rapaz dos termos pejorativos. 

Despedi-me do tópico para não perder as estribeiras, mas não consegui sair com o surgimento de uma sexta pessoa. Sua entrada na conversa foi da seguinte maneira: "Diego chiquinho.tu só podia ser colorido mesmo. Deve ser do mesmo naipe destes maconheiros disfarçado de estudante , tirando lugar de quem quer estudar. Porrada neles! ! Vagabundos!!!"

E a sequência foi um espetáculo de preconceito e ignorância. O post seguinte dessa sexta pessoa foi: "Tali ventura. Vai lavar uma roupa faz favor."

Pasmei. Não consegui responder. 

Meu esposo, cujo nome no Facebook é Diego Chiquinho, fez dois posts seguidos:

·         “Como diria a Daenerys Targaryen: "Me chamar de mulher deveria ser uma ofensa? Eu responderia na mesma moeda se o considerasse um homem"”;
·         "Talvez possamos levar o comentário machista e a curtida para a delegacia de crimes digitais. Já que amam tanto a policia, podem receber uma visita dela. Seria um dia memorável pra vcs."



Depois disso o rapaz dos termos pejorativos apagou TODOS os seus posts no tópico, e eu, de maneira fraca e instintiva respondi de maneira grosseira o comentário machista... E a coisa definitivamente descambou. 

Fiquei culpando e criticando a mim mesmo: “Deveria ter ficado quieta, pra quê responder no mesmo nível? Pra quê se expor dessa maneira? Por que não guardar a língua bem dentro da boca? Pra que causar desconforto em uma timeline que nem é sua??????

Ao mesmo tempo chacoalhei a cabeça e pensei: “O que é isso mulher, tá doida é?” Se fizesse isso, qual seria a diferença entre a minha atitude e a da mulher que é espancada e não denuncia o parceiro? Que é “encoxada” no ônibus/metrô, mas guarda pra si por vergonha? Que é subjulgada e internaliza, achando que ela é a causadora de todos os males do mundo? NENHUMA!


Triste. Triste. Triste. 



Dificilmente perco as estribeiras em um debate, sempre direcionando-o para os fatos em questão. Mas fui ofendida de maneira tão baixa e asquerosa que não consegui. Sou cheia de fraquezas, assim como qualquer ser humano, e a diminuição da minha condição enquanto mulher com certeza é uma delas, talvez, até, a mais forte. 

Queria transcrever todo o debate aqui, no entanto, com posts apagados, o sentido se perde. 

Mas queria, especialmente com esse post, socializar a minha indignação com esse machismo infindável que assola nossa sociedade, onde um homem que não consegue (ou não quer) argumentar com uma mulher que, claramente, é mais esclarecida que ele e por isso o deixa sem argumentos, a manda "lavar a roupa" como uma espécie de "cala a boca".

Pois digo que SIM, lavo muita roupa, esquento a barriga no fogão, dirijo a vassoura na faxina, etc etc etc...e ao mesmo tempo ocupo um excelente cargo na empresa em que trabalho tendo meu salário equiparado ao de muito barbado por aí, curso, com imensa alegria, minha especialização, me dedico ao meu esposo que é um dos homens mais gentis e doces que conheci em toda minha vida, e tem uma briga travada contra toda a nojeira que permeia qualquer tipo de preconceito dessa nossa sociedade doente. Dedico-me ao meu blog como forma de expressão e comunicação. Sou multifuncional, com muito orgulho. 

Então não venha vomitar seu machismo pra cima de mim!

E quero também me retratar com o meu querido amigo, cujo post e perfil foram invadidos por uma discussão baixa e mal educada da qual participei. Jamais foi minha intenção. Realmente sinto muito. 

Termino, então, a noite de hoje, quase 2h da manhã, com a sensação de que a sociedade não evolui, a cultura não muda, e que a mulher - ao contrário do que venho tentando me convencer - está muito longe de ser respeitada quando resolve ter voz.  


sábado, 22 de março de 2014

"Era só mais uma...Cláudia!"

Não quero, de verdade, ser sensacionalista ao escrever, por isso colocarei a minha mais profunda reflexão em pauta.

Desde as manifestações de Junho/13 venho narrando os excessos da polícia militar que presenciei ou que apenas me fiz sabedora, no entanto, não tenho base teórica para discursar sobre isso, não conheço a corporação, não sei de suas ideologias, não tenho como medir se os bandidos de farda são maioria ou, talvez, uma minoria que se destaca...

No entanto, não posso e nem devo, como cidadã, usar dessa ignorância para calar a angústia que sinto cada vez que é noticiado algo grotesco e violento envolvendo esta corporação. É claro que, com isso, falo do que todo mundo já falou essa semana: o caso de Cláudia da Silva Ferreira, uma mulher negra, pobre, trabalhadora e moradora de periferia. Convenhamos: dos quatro adjetivos usados para descrevê-la, três deles – no mínimo – se encaixam em muitos perfis “socorridos” pela polícia militar.

Confesso, não assisti ao vídeo postado milhares de vezes, onde aparecia Cláudia sendo arrastada. Não consegui. Não consegui. Não consegui!!! É uma coisa tão (...) – não encontro uma palavra sequer que defina – que foi além dos meus limites.

Justamente por isso me pergunto como alguém pode ter uma atitude dessa: atentem, se uma pessoa não consegue nem assistir um vídeo de tão grotesco o fato, como pessoas conseguem executar o tal fato.

O assassinato (não, não tem outro nome) de Cláudia foi só mais um em um mar de sangue que banha a corporação supracitada. E a justificativa da prisão: foram presos por SOCORRER A VÍTIMA! Isso, certamente, é subestimar a inteligência das pessoas. Sabe a impressão que dá? Que a polícia militar é a instrumentalização da “higienização social” almejada pelos cartolas/magnatas/políticos do Brasil para mostrar um país que não existe no Mundial que está quase chegando.

Ainda por cima, como se tudo isso não bastasse, li um post da página Geração Incrível, no Facebook, onde a chamada de atenção é a desumanização dessas vítimas.

                               “Mulher arrastada, mulher arrastada, mulher, mulher, moradora, moradora, moradora, morta, morta, arrastada, arrastada, arrastada, arrastada. Filha de arrastada, enterro de arrastada, viúvo de mulher, mulher arrastada.”

A mulher tem nome, tem identidade, tem família, tem história... A maneira que Cláudia é citada – assim como tantos outros – já deixa claro o quanto essa violência institucionalizada está se tornando comum, corriqueira... Triste!

O mais triste ainda é que os casos que são noticiados com tanto fervor – e, por que não, sensacionalismo – são apenas os que, por “descuido ou coincidência infeliz”, vazam do silêncio e da sordidez. Um exemplo foi o caso do pedreiro Amarildo. Por que foi tão investigado? Porque de alguma forma ele se tornou expressivo em meio a um período fervoroso de reivindicações, e ficou internacionalmente famoso. Ou seja, foi uma pressão mundial pra descobrir onde estava o homem que era pobre, negro, morador de periferia e, adivinhem? Foi assassinado pela polícia.

Se Cláudia não tivesse sido filmada, POR ACASO, sendo arrastada da maneira que foi, esse fato escabroso teria chegado a mídia? O depoimento da família, afirmando que ela foi assassinada, teria sido levado em consideração? A família teria se quer sido ouvida? Quantas Cláudias e Amarildos são vítimas TODOS OS DIAS? Quando isso terá fim?

Só para encerrar, um curto relato: estivemos, meu esposo e eu, de férias em Montevideo – Uruguai no início do ano. Estávamos tomando chimarrão em uma praça quando vimos duas mulheres, também tomando chimarrão, de farda. Olhamos-nos e falamos: “não é possível que sejam policiais”. E eram. Com as bicicletas encostadas nas árvores, fazendo policiamento. Um lugar em que nos sentimos mais seguros do que qualquer outro que tenhamos frequentado/morado/conhecido no Brasil.

Violência gera violência. E quando essa violência é representada por uma instituição pública, altamente armada, com aval do governo e cobertura da mídia para sustentar suas barbáries, não consigo imaginar quantas Cláudias ainda estão por vir, que serão veladas dolorosamente e enterradas na indulgência da justiça.






domingo, 16 de março de 2014

Depois de um novo hiato...

Depois de um longo hiato, mais de seis meses, senti muita vontade de voltar a escrever. Explico: refletindo, na nova cadeira da especialização, sobre a importância de escrever, me perguntei por que abri mão de um instrumento que tanto gosto – o blog – e deixei de expressar o que acho, sinto, preciso dizer! Tudo isso através da escrita, ferramenta de comunicação que sou apaixonada. 

Por isso voltei.

Às vésperas do meu trabalho de conclusão do curso e com uma galáxia inteira de possibilidades perpassando meus pensamentos, passei os olhos por cima de tudo que já escrevi e percebo o quão clara é minha obrigação!
Sim, porque pesquisar a escola como gerenciadora de conflitos em um mundo em que o jovem é um joguete (principalmente) da violência institucionalizada que vivemos, é minha obrigação.
·         Obrigação de devolver alguma contribuição às instituições que tanto contribuíram para minha formação e me possibilitaram vivenciar uma multiplicidade de situações – dramáticas, quase todas;
·         Obrigação de poder fomentar alguma discussão, mínima que seja, e chamar a atenção para o jovem negligenciado pelo preconceito de classes que o afasta de suas oportunidades, desperdiçando seu talento e o marginalizando;
·         Obrigação de tentar contribuir com jovens advindos de famílias totalmente desestruturadas, que assim o são porque, em algum momento, foram esquecidas pela sociedade;
·         Obrigação de ser fiel aos meus princípios, construídos de maneira teórica e intuitiva, que desenham o que sou e como me disponho a viver.


Agora, com as coisas um pouco mais claras, vamô que vamô!!!


domingo, 18 de agosto de 2013

A violência não pode ser banalizada!

Depois de quase dois meses sem escrever, volto. A pausa se deu por um conjunto de motivos: falta de tempo, porque a rotina alucinada nos esmaga; trabalhos da especialização, que também tem me consumido bastante, mas principalmente a falta do que escrever. Não que faltem assuntos, eles são abundantes sempre. Mas faltou o ímpeto, aquela alavanca que me faz colocar o notebook no colo, estralar os dedos e "mãos à obra".

Após as manifestações me deparei com uma cenário que, de certa forma, me preocupou - pra não dizer que entristeceu. Vivo logada no facebook, mantenho, através dele, contato com amigos e familiares que estão distantes, acompanho suas vidas e compartilho um pouco da minha, mas vi nesse período intenso de manifestações, as timelines da vida se tornarem verdadeiras arenas. Uma agressividade surgiu dessa disputa por foco e poder que, a meu ver, ultrapassou todo e qualquer limite aceitável no calor das disputas políticas. 

Pensando em tudo isso, refletindo, questionando o que vi, li, e provavelmente até postei, cheguei a uma conclusão - que não é necessariamente conclusão porque com o passar do tempo vemos que nada é tão definitivo - FALTA AMOR!

Falta amor das pessoas umas pelas outras, falta amor do estado pela população, falta amor - muitas vezes - da população pelo país, falta amor pela educação, falta amor pela família, falta amor pela vida. A falta de amor acarreta em desrespeito, e foi isso que vi. Preferi me retirar desse ambiente de gladiadores de "direita" e "esquerda" e ficar nos bastidores conversando, mediando e - sempre - refletindo. 

No entanto... 

Ontem, ao voltar da PUC com meu esposo, o ônibus em que estávamos foi parado em um pedaço do trajeto onde o tráfico e a violência de maneira geral são bastante presentes. Um policial entrou no veículo e ordenou que todos os homens saíssem com seus pertences, e que as mulheres permanecessem onde estavam e abrissem suas bolsas. Meu esposo e todos os outros saíram tranquilamente em direção a calçada. Enquanto isso uma policial entrou e revistou os pertences das mulheres. Ela agradeceu, desejou boa noite e bom descanso a todas. Até aí tudo bem, minha única apreensão era a de ser assaltada ou sabe-se lá o que, enfim, nessas horas tudo passa pela cabeça de uma pessoa medrosa - como eu. 

Mas quando olhei para fora fui tomada por um sentimento misto de asco e decepção. Todos os homens estavam emparedados como marginais, sendo revistados da maneira mais humilhante. Lógico que se eu tivesse visto homens que eu não conhecia teria ficado apenas chocada e decepcionada com uma abordagem desnecessária, um abuso de poder. Mas quando vi meu esposo, que estava voltando pra casa depois da aula conversando sobre a mesma e tudo mais - sendo tratado como um bandido, a fúria foi imediata. 

Enquanto os homens ainda estavam fora do ônibus, duas moças conversavam sobre o porquê dessa abordagem, e uma delas disse que há uma semana o irmão tinha sido assaltado exatamente no local onde estávamos parados. Nesse momento a cobradora da linha T1 interviu bastante irritada quase gritando que tem que se fazer mesmo porque semana passada foi pego um "colega nosso" com droga no ônibus. Nesse momento não consegui me conter. Disse que meu colega não era, e ela respondeu: "é sim, é da PUC". Ou seja, todos os milhares de alunos da PUC carregam, ou vendem, ou usam, ou sei lá eu o que...drogas! Achei melhor não falar mais nada devido a tensão do momento e a minha provável falta de filtro somada ao nervosismo. 

Os homens entraram no ônibus, o percurso seguiu, mas mesmo depois de ter chegado em casa não consegui digerir. Não deu. Por que não orientar os homens para abrirem suas mochilas? Por que não dar a eles o mesmo tratamento dado as mulheres que ficaram no interior do veículo? Por que uma truculência seguida de humilhação desmedida? Por que essa necessidade (desnecessária) de mostrar serviço? Mostrar a quem? Por que não agir com ênfase assim no núcleo do problema, que é no interior daquele bairro e de tantos outros onde o tráfico corre solto? O que fariam se encontrassem uma quantidade irrisória de qualquer coisa em alguma mochila, considerando que porte não é crime? Não estou dizendo, com isso, que é certo ou errado, mas apenas que de acordo com a nossa legislação, porte não é crime. 

Com tudo isso lembrei de um discurso do professor Vladimir Safatle, "A democracia para além do estado democrático de direito", que meu esposo até compartilhou um dia desses em suas incansáveis críticas à Brigada Militar, mas que me foi apresentado através de um dos professores da especialização que me inspira grande confiança e segurança para esse tipo de debate por ter em sua fala sempre a relação (ou falta de)  entre Direito X Justiça. Enfim, em seu discurso o professor Safatle expressa que a democracia não deve depender de instituições que funcionam mal, e, pra mim, a brigada/polícia militar na forma com que se apresenta hoje é uma das instituições mais falhas da nossa sociedade. 

Hoje, coincidentemente, o tema da aula foi bullying e violência escolar, e em um dado momento socializei o fatídico acontecimento da noite anterior. A primeira coisa que ouvi foi: "garanto que se estivesse do outro lado apoiaria a brigada". QUE LADO? Pra mim existem dois lados: o opressor e o oprimido. Se um dia me coloquei como opressora foi de maneira inconsciente, e me policio para que isso não aconteça, não apoio de maneira alguma nenhum tipo de opressão, truculência, chamadas de atenção sem contextualização, enfim, fiquei impressionada com o comentário. No mesmo assunto surgiram outros comentários do tipo "se você tiver um filho e ele sofrer bullying você exigirá uma atitude da escola, mas duvido que se for ele a praticar você admitirá uma intervenção da mesma maneira". Pois respondo aqui que SIM, admitirei. Até porque não tem gostar ou não gostar de uma ou outra medida, a escola precisa quebrar essa corrente de violência trabalhando o ser social com seus estudantes e suas respectivas famílias. Até porque, se o meu filho (a) se tornar um adulto truculento e violento, sem limites e noções, não caberá a mim gostar ou não, por exemplo, que ele seja preso. Se o mesmo fizer alguma coisa que, de acordo com a legislação, o leve a isso, que poder de decisão baseado no "gostar" ou "não gostar" eu terei? Nenhum. Quem disse que educar é fácil? Quem disse que romper paradigmas é fácil? Quem disse que reforma social é fácil? O papel de educar e orientar é sim da família, mas sejamos sinceros na análise da nossa realidade: muitas famílias não tem condições de dar essa orientação, então ela precisa partir da escola. As iniciativas precisam ser da escola para que um dia o quadro mude, para que esse estudante que foi beneficiado com a interferência seja um pai ou uma mãe mais presente amanhã.

Disse ontem, disse hoje pela manhã e continuo dizendo: a violência está institucionalizada e, por mais que isso seja gravíssimo, não é o mais preocupante. O mais sério é que as pessoas estão cada vez mais acostumando-se com isso, achando normal, achando que faz parte...Não é normal. Não é correto. Não é o caminho.

Por fim eu, que sempre fui e continuo sendo tão contra a generalização, não quero aqui generalizar e dizer que todos os policiais são o retrato da truculência e da opressão. No post Não é por 0,20 centavos fiz menção à Coronel Claudia Romualdo que, exercendo plenamente sua cidadania, viabilizou uma manifestação tranquila e pacífica em Belo Horizonte. 

Mas quero sim chamar atenção para um grupo de maus profissionais que infelizmente ganha o foco pelas atrocidades cometidas. 

Para terminar tinha pensado em colocar a letra da música Fix You, do Coldplay, que ouvi hoje a caminho da aula pensando o quanto a primeira estrofe tinha relação com como eu estava me sentindo - "When you try your best, but you don't succeed / When you get what you want, but not what you need / When you feel so tired, but you can't sleep / Stuck in reverse...", mas tem outra que simplesmente não pode passar batida hoje, em especial. E com essa me despeço!


"Dizem que ela existe pra ajudar!
Dizem que ela existe pra proteger!
Eu sei que ela pode te parar!
Eu sei que ela pode te prender!

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa de polícia...

Dizem pra você obedecer!
Dizem pra você responder!
Dizem pra você cooperar!
Dizem pra você respeitar!

Polícia!
Para quem precisa
Polícia!
Para quem precisa de polícia..."



terça-feira, 18 de junho de 2013

Porto Alegre, 17 de Junho de 2013!

Ontem, ao chegar da manifestação, postei o que vi da mesma na minha timeline. Mas pra não deixar passar batido o fato de que tudo que penso posto aqui, trarei pro blog o relato e as fotos que julguei significativas!

"Quase duas horas depois de chegar em casa consigo parar de ler tudo que vai sendo postado e escrever o que achei do protesto:


- Começou lindamente com pessoas de todas as idades em frente a prefeitura, os cartazes (em todo o Brasil, por sinal) eram geniais, os cantos entoados também. Na hora que a galera toda cantou o hino do Rio Grande, cara...que arrepio. Lição de cidadania!


- Quando a passeata saiu e começou a subir a Borges de Medeiros, muitas pessoas apareceram nas janelas dos prédios aplaudindo e balançando panos brancos nas janelas. Uma até estava com um tamborim acompanhando o batuque da galera. Lindo demais!!

- Quando passamos por baixo do viaduto da Salgado Filho vimos uma faixa gigante escrito "RBS (Globo) MENTE" e a galera cantava "RBS, pode esperar, a sua hora vai chegar...". Sinal de que as pessoas estão finalmente enxergando que existem mídias e mídias...

- Enquanto descíamos a Av. João Pessoa, um rapaz de roupa preta e capuz pichou alguns prédios...e todas as vezes que ele fez isso o pessoal entoava vaias e gritava "SEM VANDALISMO"...

- Ao passarmos pela concessionária da Volkswagen em frente ao colégio Julio de Castilhos, um grupo de três ou quatro rapazes picharam a parede da frente e quebraram um vidro. Foram reprimidos imediatamente pelos manifestantes que estavam perto e saíram correndo (passaram, inclusive, correndo bem na nossa frente que até tivemos que dar um passo pra trás);

- Entre um QG do PT e do PMDB duas pessoas se desentenderam, mas antes que tomasse qualquer proporção, os manifestantes que estavam próximos separaram e ficou tudo bem. Imagina se a brigada [polícia] militar tivesse interferido...tinha virado pancadaria ali mesmo;

- A manifestação seguiu tranquilamente, tudo na mais santa paz, até chegarmos na esquina da Av. João Pessoa com a Av. Ipiranga. Ali, um grupo de 3 ou 4 rapazes quebrou toda a vitrine de uma concessionária da Honda. Os manifestantes interferiram, mas não conseguiram impedir o vandalismo. Depois que os vândalos (sim, esses são vândalos mesmo) fugiram, a manifestação virou na Ipiranga em sentido ao prédio do jornal Zero Hora (RBS). Eu e o Diego (meu marido) viramos a Ipiranga no sentido PUC, lado contrário da manifestação, por dois motivos: ficaria melhor pra pegarmos ônibus pra voltar pra casa, e em segundo lugar,  o marido falou que provavelmente a polícia estaria em frente ao prédio do jornal, então era mais prudente não irmos. 

- Quando estávamos em frente ao hospital Ernesto Dornelles, olhamos para trás e vimos uma sirene que, pela distância, imaginamos estar em frente ao prédio do jornal. Comentamos que pra barbárie começar a acontecer era questão de tempo. Nesse exato momento ouvimos muitos tiros, a fumaça levantou e foi uma correria desmedida. Quando cheguei em casa vi as fotos mostrando que quando os policiais atiraram a manifestação estava super longe...eles estavam atirando a esmo por pura sede de sangue. Enquanto isso as pessoas não pararam de bradar, em momento algum, "SEM VIOLÊNCIA"...

- Enquanto ainda estávamos no ônibus, acessamos do celular o site clicrbs pra ver o que estava sendo noticiado e, adivinhem: "Manifestantes e polícia entram em confronto na Avenida Ipiranga". Gente...socorro...a reportagem deixa a entender que os policiais agiram para dispersar os manifestantes devido ao vandalismo na loja da Honda, mas quero lembrar que os policiais estavam vestidos para guerra há duas quadras de distância ESPERANDO os manifestantes chegarem pra sentar porrada. Não foi pela concessionária, pois os policiais nem viram isso acontecer. Eles estavam esperando de ESPREITA. Estava anunciado que quem chegasse a frente da manifestação no local de destino, apanharia!

- Infelizmente existem sim os vândalos que se usam dessas situações para suas imbecilidades, mas um grupo de 10/15 mil pessoas marchando em paz não pode pagar o pato. Infelizmente esse mínimo grupo de desordeiros tiram os argumentos de quem leva a coisa a sério, porque eu queria ver o que essa mídia nojenta divulgaria como razão para a barbárie da brigada militar se não houvesse o episódio da esquina. 

- Depois da barbárie iniciada COVARDEMENTE PELA BRIGADA MILITAR, a confusão se instituiu: grupos em vários lugares queimaram contêineres de lixo, incendiaram ônibus, incitaram a violência, etc etc etc...no entanto quero lembrar que aprendemos, desde crianças, que violência gera violência. Não defendo quem tem essas atitudes, mas quero lembrar que elas foram resposta pela atitude da polícia, e não o que causou a truculência...

- Quanto mais leio e assisto as notícias sobre a manifestação, mais nojo e raiva me dá...eu estava lá, eu vi...eu ouvi...eu senti o desespero das pessoas correndo de covardes incompetentes armados, ouvi o motorista e o cobrador do ônibus (T1, pra quem conhece) fazendo piadinhas chamando a todos de desordeiros e desocupados e atribuindo, quando os passageiros entravam no ônibus lotado, a responsabilidade pela lotação à manifestação que bloqueou o trânsito. Engraçado né, em todos os outros dias ela se deve a quê?

- Mas o melhor de tudo é que, como disse o PVC, não se sabe como isso tudo vai acabar, mas a galera estudará o dia 17 de Junho de 2013 no colégio e na faculdade...

Vou dormir muito feliz por ter, pelo menos por hoje, feito minha parte!

"PRA COPA DIGO NÃO...QUERO DINHEIRO PRA SAÚDE E EDUCAÇÃO...""



Hoje, 18/06, no Jornal do Almoço, o foco foi quase que totalmente o prejuízo que as manifestações causaram. Quero lembrar que elas NÃO CAUSARAM PREJUÍZO NENHUM, o que causou foi a barbárie que se seguiu depois. 

Quero parabenizar novamente os canais ESPN por, apesar de ser um canal com temáticas exclusivamente esportivas, estão fazendo a melhor cobertura de todas quanto as manifestações. 

Bora lá, dia 24/06 tem mais...

#ogiganteacordou

Queria ter gravado mais, mas não dava tempo. 

 Começando os trabalhos...

"Jogaram mentos na geração Coca-Cola"
                                 
Vândalos. No, wait...

Manifestante batucando na sacada

Casa do estudante - UFRGS

  "Diminuam a tarifa e mandem a conta pra FIFA"

Isso sim causou prejuízo...

A foto que mais retratou a covardia!


domingo, 16 de junho de 2013

Não é por 0,20 centavos.

Eu tinha em mente, até metade da semana, outro tópico para escrever. No entanto, é impossível ignorar tudo que está acontecendo com relação ao Movimento Passe Livre, é impossível deixar de registrar minha opinião tanto sobre o momento histórico que estamos vivendo quanto sobre a repercussão do mesmo.

O título do post se dá porque tenho ficado extremamente indignada ao ver que uma mídia manipuladora faz questão de perguntar: “mas todo esse vandalismo por causa de 0,20??”.

Não...não é por isso. Quero organizar meus argumentos em cima da fala do [pseudo] jornalista Arnaldo Jabor. Ele começa perguntando “o que provoca um ódio tão violento contra a cidade?”. Pois então, querido Jabor, o ideal seria perguntar isso aos policiais militares que, mesmo com os MANIFESTANTES (e não vândalos) gritando “SEM VIOLÊNCIA” a plenos pulmões, avançaram para os mesmos com uma fúria desmedida. Existem imagens de todos os ângulos que registraram  a truculência e repressão da força policial. Nem vou comentar o fato de comparar os manifestantes com facções criminosas que queimavam ônibus, porque me causa um asco tão grande tal comentário, que eu nem conseguiria terminar de escrever. Em seguida afirma com veemência que no meio dos protestos “não havia pobres que precisassem daqueles vinténs”, alegando que quem estava nas ruas eram filhos da classe média. Eu não conheço as pessoas que ali estavam, mas não acredito em tal afirmação. Mesmo que fosse verdade, que sorte da sociedade ter seres humanos altruístas que pintam faixas e vão para as ruas lutar por uma causa que não é de todo sua. De qualquer maneira, como eu disse, no protesto “dos vinte centavos” está uma manifestação política que estava, há muito, adormecida; uma juventude bradando por um país melhor, mais digno e pleno. Nosso querido Arnaldo segue seu derrame de hipocrisia declarando que “talvez seja influência da luta na Turquia, justa e importante [...] mas aqui, se vingam de quê?”...ora, querido comunicador, não se vingam de nada, apenas fizeram jus ao marketing de que “a rua é a maior arquibancada do Brasil”, e nessa arquibancada expressam sua indignação com o pouco caso que nós todos, inclusive Vossa Senhoria, sofremos com os rumos da nossa política principalmente nessa época sombria da nossa história que antecede a copa do mundo e uma total contingência sobre o amanhã. Quase no fim interroga: “por que não lutam contra o Projeto de Emenda Constitucional 37? [...] Talvez eles nem saibam o que é PEC 37...”. Sim, nobre senhor, eles sabem. Tu é que não tivestes sabedoria e amplitude (ou simplesmente vontade) de interpretar que essa luta é uma das muitas que permeia os tais 0,20. Não subestime uma juventude politizada, não se preste a um papel tão ridículo... Termina afirmando que “esses revoltosos não valem nem vinte centavos”. Quem não vale, querido amigo, és tu, que tem um grande espaço na mídia para falar o que bem entender sem precisar levar bomba de polícia, cheirar gás lacrimogêneo, levar tiro no olho, ser agredido e humilhado... e nem assim tens a dignidade de fazer valer sua cidadania e sair da sua bolha burguesa e limitada.

Em contra partida ao comentário repulsivo supracitado está o quase desabafo do apresentador João Carlos Albuquerque, do canal ESPN, chamando o protesto de protesto e os manifestantes de manifestantes (não usou, em momento algum, o termo vandalismo), dizendo que SIM, as manifestações acontecerão em massa agora porque nesse exato momento o mundo inteiro está de olho no Brasil. É a hora da voz do povo ser divulgada, e não a de uma política que camufla as informações e só “vive essa energia”. Parabéns a ESPN por ter jornalistas de verdade fazendo um trabalho limpo e imparcial, enquanto as grandes redes são verdadeiras massificadoras sociais (para não usar termos mais fortes).

Somado a tudo isso veio um trabalho que um colega apresentou na pós ontem, onde trouxe citações de Zygmunt Bauman falando que muitas vezes é mais prudente se ter medo de quem cumpre a lei, do que de quem a descumpre. Haveria afirmação mais pertinente que essa para o post de hoje? Não. Na ditadura getulista os “cabeças de tomate” causavam total terror à população por “cumprirem as ordens” de um regime ditatorial. Durante o nazismo, a Gestapo tinha um poder terrorista ainda maior por cumprir as ordens de Hitler. Com o passar dos anos muitas lutas acarretaram em muitas conquistas, inclusive a “democracia”, que coloco entre aspas porque acredito que ainda precisamos evoluir muito para chegar a ela. Digo isso porque a postura da tropa de choque da polícia militar reproduziu a repressão dessas duas forças do passado, calando a voz do povo em uma luta onde um lado portava armas e o outro, a voz.



É preciso refletir sobre até que ponto podemos defender que vivemos em uma democracia onde existe o direito (inclusive constitucional) de manifestar o que quer que seja. Acredito que nessa última semana em particular isso foi colocado em cheque. No entanto, para servir de alento, hoje circulou nas redes sociais a atitude honrosa da Comandante do Policiamento de Belo Horizonte, Coronel Claudia Romualdo, que contrariou liminar proibindo protestos e viabilizou uma manifestação pacífica tanto para os manifestantes, que puderam expor seu protesto; quanto para os policiais, que apenas abriram caminhos para que a democracia acontecesse. PARABÉNS Coronel, e que muitas Claudias apareçam por aí.

O apoio às manifestações vem de todos os lugares, inclusive do exterior. Isso sim é mundialização. Isso sim é globalização. Não é todo mundo ter o mesmo computador, o mesmo celular, ouvir as mesmas músicas, tirar férias nos mesmos destinos...é o mundo se mobilizar por uma mesma causa: a da justiça – não judicial, mas sim, humana.

Paris

Dublin

Nova Iorque

Berlim

Parabéns aos manifestantes, pela atitude e coragem. Parabéns aos brasileiros e estrangeiros que, de onde quer que estejam, mandam mensagens de apoio à “revolução”.  Parabéns aos manifestantes que sabem sair de casa e ter a grandeza de serem melhores que aqueles que os coagem. Parabéns  pouca mídia que retrata, realmente, o que está acontecendo. Parabéns a quem não desiste de lutar, não desiste de pintar a cara e gritar por um país melhor. Parabéns aos blogueiros (que também são mídias) que não param de divulgar o que [realmente] acontece.

Professor carregando policial ferido durante a manifestação pelo aumento salarial. Manifestação essa que os professores também foram tidos como vândalos.

Que vergonha da polícia militar, pela truculência e postura indesculpável com os manifestantes e jornalistas que cobriam as manifestações, que vergonha (ainda maior) de quem manda que isso seja feito, que vergonha da mídia vendida que prefere dizer que não temos motivos pra lutar, que vergonha do cidadão que não entende a importância dessa luta e prefere fazer coro a quem chama esses revolucionários de bandidos...que vergonha de tão pouca gente se mobilizar.


Não vivi a ditadura militar, não vivi as diretas já, não vivi a transição de regime político...mas vivo o Junho de 2013 e daqui a muitos anos contarei aos meus filhos que pude ver a história acontecer...pude ver uma mudança ser gerada em meio ao sangue de quem brigou por ela. Daqui alguns anos essa luta estará nos livros de história e as crianças e adolescentes poderão se orgulhar de quem exerceu seu papel de cidadão. Utopia? Pode ser, mas se não a tivermos, de que vale viver?


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Feliz dia dos...namorados!

Esse é, talvez, o post mais difícil de escrever até hoje. São 7:36 da manhã, perdi o sono e estou tentando fazê-lo desde as 6:30. Escrevi um monte, e quando li estava muito longe do que eu realmente queria escrever. Comecei tudo de novo. Agora vamos ver se vai...

Com o dia dos namorados chegando fiquei muito tentada a escrever sobre uma questão complicadíssima por ser extremamente delicada e difícil: a crise dos relacionamentos. Aí quem lê pode pensar: “que nada...grande coisa, qualquer um pode falar de começos e términos de namoros e casamentos...”. É difícil escrever porque o foco não é esse. O foco é o relacionamento de forma muito mais ampla, o relacionamento da humanidade com ela própria.

Nas aulas da pós é muito comum os professores abordarem a crise de paradigmas que estamos vivendo, e eu, particularmente, acredito que a crise de relacionamentos é a grande responsável: explico. Há algum tempo não dou aula. Trabalho no comércio em um grande shopping e observo o desespero das pessoas perto de datas como dia dos namorados, dia das mães, Natal... Muitas vezes estão até de mau humor comprando os presentes, porque simplesmente não querem estar ali, é pura e simplesmente uma obrigação imposta pela sociedade de modo geral.

Quando observo isso fico me perguntado: onde estão as manifestações singelas, gratuitas e sinceras de amor? Causa-me estranheza ver, por exemplo, um filho que trata sua mãe com indiferença bater perna no shopping para encontrar um presente. Assim como uma pessoa que tem uma relação estagnada correr atrás de presente para o dia dos namorados, pais ausentes enchendo o filho de presentes no dia das crianças, pessoas com listas imensas de presentes de Natal para outras que elas não tem a menor afinidade...

Essa crise que se estabelece de forma sutil e traiçoeira atinge esferas inimagináveis. Digo isso porque hoje a política e a sociedade vivem, quem sabe, o ápice da crise do seu relacionamento. Vejo uma parcela cada vez maior da sociedade insatisfeita com a negligência da política para com a população. Negligência essa que coloca mais lenha na fogueira de outras crises: a crise do doente com o SUS, do professor/aluno com o ensino público, da população em geral com a segurança...os relacionamentos estão em colapso, e em meio a uma rede de crises cresce cada vez mais um mediador bastante negativo que, ao invés de colaborar para que caminhemos em direção ao “felizes para sempre”, faz questão de cultuar o “ninguém sabe, ninguém viu”: a mídia.

Um exemplo: semana passada eu e meu esposo, como fãs incondicionais da Legião Urbana, fomos assistir ao filme “Faroeste Caboclo”. Como tínhamos visto o trailer já baixamos nossa expectativa pra decepção não ser tão grande. Mas foi. Considerando a riqueza da música e todo o contexto político que a permeia, o filme poderia ter sido riquíssimo, uma crítica social digna de Adorno. Mas não, foi um filme de elenco global que frisou, como não poderia deixar de ser, a balada de Brasília, o uso de drogas em demasia e a banalização do sexo. Não que a música não tenha isso, mas toda a riqueza política foi posta de lado. Toda a crise de relação do protagonista com a sociedade foi varrida pra debaixo do tapete e um dos maiores clássicos dos anos 80 virou produto da tela grande pra vender bilheteria. É que a realidade de quase trinta anos atrás ainda é a mesma, e ela ainda incomoda.

Um dos maiores problemas da sociedade hoje é a preocupação generalizada com a dependência química, que se espalha como fogo na pólvora. Essa dependência, a meu ver, é um produto também de uma crise de relacionamento. É uma crise, quem sabe, mais pontual, pois se dá com o indivíduo em crise com ele mesmo, no entanto tem como catalizador algum tipo de caos: ou na família, ou na (falta de) aceitação da sociedade, em uma dificuldade de se enquadrar em determinado grupo...enfim, principalmente na adolescência ela explode e é difícil contê-la. Por isso, enquanto os dependentes químicos forem tratados como marginais e depositados em celas carcerárias, o quadro continuará aumentando. O poder judiciário tem alcance até onde a lei pode ir. A crise de relacionamentos entre pessoas com pessoas, pessoas com sociedade e pessoas com elas mesmas jamais poderá ser sanada com uma sentença.

Ainda não sei se consegui expressar o que eu queria quando me propus a escrever sobre a crise nos relacionamentos, porque é difícil articular um assunto que tem tantas ramificações e, principalmente, tantas causas. Mas depois de só problematizar espera-se que se aponte uma solução, não é?! Porque afinal, a crítica só é construtiva se seguida de uma sugestão. Pois bem, a essa altura não sei o que dizer.

Sou utópica, graças a Deus, e acredito que a resposta para a crise esteja no retorno às origens. Edgar Morin em seu livro “a minha esquerda”¹ diz que é preciso conservar para revolucionar e revolucionar para conservar. Acredito numa recuperação de valores, de respeito, de afetividade, de sinceridade...de mais demonstrações e menos consumo, de mais solidariedade e menos austeridade, de mais coletivismo e menos individualismo, que as relações voltem a ser qualificadas e deixem de ser quantificadas...de uma democracia real, e não camuflada pela política politiqueira e a mídia que a sustenta.

Eu acredito que as pessoas voltarão a ser felizes com a simplicidade, que o vazio e muitas vezes a solidão que a modernidade e a autonomia trouxeram será preenchido não mais com drogas ou dinheiro, mas com a felicidade – mas essa cada um precisa descobrir a sua.

E já que foi citada, fica uma das melhores músicas já compostas. Faroeste Caboclo retrata toda a crise de relacionamento de um homem com ele mesmo, com as pessoas e com a sociedade...



¹ MORIN, Edgar. a minha esquerda. Porto Alegre: Sulina, 2011.