terça-feira, 21 de setembro de 2010

Desabafo...

Sempre escrevo sobre o que penso ou deixo de pensar, o que acredito ou deixo de acreditar, as minhas concepções de certo e errado, os rumos que julgo serem corretos para a educação, e assim por diante. No entanto, hoje quero escrever algo total e completamente subjetivo.

Há um ano e meio, desde que mudei de Blumenau para Porto Alegre, estou fora da sala de aula. Minhas únicas atuações em sala foram durante os estágios obrigatórios.

Meu trabalho em Blumenau acontecia em uma ONG que eu amava e odiava ao mesmo tempo. Ficava indignada com coisas do tipo: salário atrasado, falta de recursos, a situação de algumas famílias, a omissão da sociedade, enfim... Mas de tudo que me prendeu lá durante anos seguidos destaco, a princípio, meus alunos – alguns deles foram meus alunos antes mesmo de ler e escrever. Pude acompanhar seu desenvolvimento e, há algum tempo atrás, vê-los representando a ONG e a escola em eventos culturais e sociais. É muito orgulho. Além deles, a liberdade que eu tinha para trabalhar, desenvolver os projetos junto com a turma e de acordo com suas preferências, a possibilidade e o incentivo à promoção de debates, o exercício da criticidade, democracia e cidadania, enfim, o trabalho como um todo me fazia cada vez mais apaixonada.

Durante anos me acostumei a pensar em atividades pedagógicas 18h por dia – nas outras 6h eu estava dormindo. Tudo que eu via em qualquer lugar automaticamente remetia para a minha sala. Isso era tão involuntário que eu, muitas vezes, nem me dava conta. Além disso, minha maior companheira em tudo e a pessoa com quem eu passava mais horas do meu dia era minha mãe, que também é professora e divide da mesma paixão pela ONG e pelas crianças e adolescentes da Jornada Ampliada do que eu, logo, nem tinha como tudo isso ser diferente.

Mas por que o título do post é “Desabafo...”?

Porque desde o dia em que mudei para Porto Alegre busco, incessantemente, a possibilidade de lecionar novamente. E todas as tentativas até agora foram frustradas. O tempo foi passando, passou-se um ano, está passando o segundo, e continuo trabalhando em um setor que não tem nada haver comigo, me ocupando de coisas das quais não entendo e, honestamente, nem busco tanto entender, enquanto poderia estar dando o meu melhor para muitos, mas muitos alunos. E o pior de tudo isso, esses muitos alunos estão, em sua maioria, sem professores.

O déficit estadual e municipal de professores de Português é grotesco. É inconcebível pensar que como eu, existem tantos outros professores sedentos de lecionar sendo obrigados a estarem afastados da sala de aula por pura conveniência política, enquanto a sala precisa de nós tanto quanto nós precisamos dela.

Me pego, quase que diariamente, pensando no que eu poderia estar desenvolvendo em sala de aula com meus alunos hoje, se eu estivesse em uma. Penso em atividades, propostas, projetos, arquiteto planos, prevejo resultados... Só falta conseguir concretizá-los.

Tinha me disposto a ser breve, mas não consegui. Eu só espero que o investimento nos professores seja feito de uma vez por todas, enquanto há em quem investir. Porque mesmo os sonhos mais idealizados, quando ficam platônicos por um tempo demasiadamente longo, perdem o brilho e a vontade de acontecer.

A música que segue é pra pura reflexão de estado de espírito...


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