segunda-feira, 22 de abril de 2013

Alexandre Lopes, O Missionário.


Fico tão feliz quando, ao invés de escrever críticas, escrevo sobre coisas boas. Aí alguém pode me dizer: Mas tu podes escrever sobre o que quiseres, se queres escrever só sobre coisas boas, pois que assim o faça!

Se eu fizesse isso, trairia meu propósito. Escrevo sobre aquilo que me chama atenção, aquilo que acho importante, aquilo que considero fundamental ser compartilhado.

Por isso agradeço a Deus e a humanidade quando o que se sobressai em uma semana tão cheia de “terrorismo”, literalmente, é uma notícia sobre uma pessoa pra lá de especial que está fazendo a diferença na vida de tantas outras e, merecidamente, sendo reconhecido por isso.

A reportagem que assisti essa noite foi sobre Alexandre Lopes, um brasileiro que ganhou o prêmio de melhor professor da Flórida e concorre, nesse momento, ao prêmio de melhor professor dos Estados Unidos.

Lembrei, acima de tudo, das pessoas maravilhosas com as quais já trabalhei e tem uma filosofia de trabalho muito parecida com a dele, e isso me deixa muito orgulhosa de saber o quão privilegiada sou por ter convivido com tanta sabedoria. Dentre elas minha mãe Marli e minhas amigas Kathy e Joyce, três professoras maravilhosas que se identificam tão grandemente com o professor em questão que foi impossível não pensar nelas enquanto assistia a reportagem.

Alexandre cursou o Mestrado na Universidade de Miami e atualmente faz sua pesquisa de Doutorado na Universidade Internacional da Flórida, além disso, dá palestras e participa de um projeto que estimula a formação continuada dos professores.

Mas não é nem o currículo impressionante e nem os trabalhos extracurriculares que me chamaram atenção, muito menos a parte glamurosa dos prêmios e tudo mais...mas sim seu trabalho com as turminhas inclusivas na Carol City Elementary. O trabalho de Alexandre é simplesmente incrível.



Ele trabalha com as crianças única e exclusivamente de forma lúdica e sua principal ferramenta é a música. Além disso, usa da tecnologia não em tablets, mas sim em um quadro digital onde a criança toca e ouve a resposta da atividade proposta. Também digitaliza livros tirando os textos, mostrando apenas as figuras para incentivar a produção individual e coletiva.

Além disso, trabalha o toque...nas aulas existem abraços e beijos das crianças para o professor, do professor para as crianças, e das crianças com as crianças. O abraço, o aperto de mão, o carinho no rosto, o cafuné...o famoso “toca aqui”...a AFETIVIDADE que se faz cada vez mais ausente na educação. O trabalho de Alexandre visa não só proliferar uma educação inclusiva em sala de aula ou na escola, mas sim nas famílias e, através delas, em toda comunidade. Essa é a postura que vi tantas vezes ser desempenhada pelas três grandes professoras que anteriormente citei, e que graduação ou especialização nenhuma trazem em seu currículo. Tenho certeza de que além de intervir positivamente na vida dos seus alunos e famílias, Alexandre também inspira aqueles que trabalham com ele tendo contato diário com a linda didática que adota.

Esse professor é Brasileiro, é herdeiro cultural de Paulo Freire, é um orgulho não só para os professores quanto para toda a população do Brasil. É uma pessoa iluminada que a cada dia faz a diferença no mundo, cumpre sua missão...

Quantos Alexandres temos no Brasil? Muitos, muitíssimos. A grande diferença é a oferta de contexto para esse desenvolvimento. Ele ganhou, ou melhor, conquistou o privilégio de cursar Mestrado e Doutorado com bolsa integral, podendo ao mesmo tempo privilegiar uma comunidade inteira com seu maravilhoso trabalho e qualificar sua formação. O benefício disso é óbvio: quanto mais qualificado se possibilita que um profissional seja, maior será seu retorno para a comunidade para qual ele se doa.

Ele não defende a formação continuada por acaso, mas sim porque como um profissional da educação de alto gabarito, reconhece a importância que essa formação tem no dia a dia de quem está em sala de aula e precisa, ininterruptamente, de injeções de novidades.

É um exemplo a ser seguido...é um modelo a ser parabenizado...é um orgulho poder dizer que existe um brasileiro longe de sua pátria fazendo tanto por tantas famílias de maneira tão nobre.

E assim como agradeci ao Chico Livreiro, agradeço ao Alexandre Lopes. Obrigada por me lembrar a razão da Educação , pra mim, ser a missão mais linda designada para os missionários escolhidos: os professores. 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Da série: Diminuição da maioridade penal, SOU CONTRA!


Muito vejo sendo dito, nos últimos dias, sobre a diminuição da maioridade penal. Muito já opinei e compartilhei nas redes sociais. Muito já li. Muito já refleti sobre o que escrever. E resolvi escrever no blog por dois motivos: primeiro, é onde despejo minhas ideias; segundo, porque assim só lê quem quer e não obrigo ninguém a ficar descendo textos imensos na barra de rolagem. Democracia.

O que acalorou essa discussão que estava adormecida há tempos foi o fato de um rapaz ter sido assassinado na entrada de casa por um menor, esse que por sua vez estava praticando um assalto e atirou mesmo depois do rapaz já ter lhe dado o que queria. Todos os noticiários transmitiram imagens e entrevistas da família que pede, inconsolavelmente, justiça. O que mais uma família despedaçada e mergulhada na dor e na revolta pediria?

Mas que justiça é essa? A diminuição da maioridade penal? Não. E isso não é única e exclusivamente a minha opinião, é FATO. E não são as pessoas que no momento estão sofrendo e buscando forças para superar que devem decidir isso, mas sim quem está em condições de legislar imparcialmente.

Já conversei incansavelmente, anos a fio, a esse respeito com as mais diversas pessoas das mais diversas áreas e o consenso é sempre o mesmo. O adolescente possui um estatuto próprio porque está em uma fase particular de desenvolvimento. Esse estatuto foi criado para garantir seus direitos enquanto ser humano negligenciado e, SIM, seus deveres enquanto indivíduo que descumpre as leis que estão garantidas na nossa constituição, assim como qualquer outra pessoa.

Tenho que dizer que esse discurso ultrapassado e fraco de “o adolescente pode fazer o que quiser e sabe que pode, pois nada garante que alguma coisa aconteça com ele” me cansa muito. O Estatuto da Criança e doAdolescente (ECA) tem, do artigo 103 ao 125, detalhadas todas as medidas aplicáveis quanto as práticas de atos infracionais. No artigo 111, que trata das garantias processuais, nada difere do que é garantido a um indivíduo maior de idade no que diz respeito a responsabilidades – a não ser o direito de solicitar os pais ou responsáveis.

Digo mais, o ECA tem assegurado ao adolescente práticas que deveriam ser adotadas pelo sistema carcerário – se fosse para elas acontecerem de fato e não só no papel, pois defende tratar o indivíduo com dignidade para que ele possa assim ser reinserido na sociedade, e não pra que volte paras as ruas bandido mais competente do que saiu delas.
O artigo 121 expõe, talvez, a questão mais polêmica: a prisão – tratada no ECA como internação. O adolescente pode SIM ser julgado e ter sua privação de liberdade determinada, no entanto, é uma medida extrema e que vai de acordo com a gravidade do seu delito. Eis aqui mais um exemplo: como pode um ladrão de bolsas ficar preso junto com um chefe de tráfico? Como podem duas pessoas que cometem crimes tão diferentes serem sujeitos ao mesmo caos? E não me venham falar que um fica preso um ano e o outro dez, porque sabemos muito bem que isso nem sempre é verdade. O ECA explora todas as outras medidas possíveis, destruiu: conserte, lesou: ressarça... Isso é educação. Quando o crime é grave (como assalto a mão armada, assassinato, estupro...) a liberdade do indivíduo é tirada e é investido na sua educação mesmo dentro das fundações.

Isso é só um resumo do ECA feito de forma bem parca, apenas para ilustrar a quem interessar possa que o adolescente não está no mundo a passeio, que ele tem seus direitos garantidos por ter uma sociedade inteira o negligenciando. Dito isso leio mais comentários: “mas cada um sabe o que faz, ninguém é inocente a ponto de matar e se fazer de coitadinho...”

Primeiro: o adolescente não é “coitadinho”. Termos pejorativos nesses debates só mostram o despreparo de quem os usa. O adolescente é negligenciado quando é membro de uma família desestruturada (e não digo financeiramente, mas de forma geral), quando não tem acesso a uma educação de qualidade, quando está inserido em uma sociedade discriminatória, quando encontra dificuldades IMENSAS em encontrar o seu primeiro emprego, enquanto que ganhar dinheiro de forma ilícita é tão simples, quando tem em chefes do tráfico mais proteção do que nos policiais que deveriam significar segurança...e quando tem em seus líderes e governantes exemplos impunes de corrupção e desonestidade.

Se tudo isso não acontece não é porque não existe lei que garanta, mas sim porque não há quem faça essa lei ser cumprida. O Brasil tem uma deficiência gigante quanto à estrutura de acolhida para esses adolescentes, muitos são julgados, mas não podem cumprir sua sentença por não existirem vagas considerando que as fundações para internações são raras. Devido a esse mesmo problema, muitos juízes optam em determinar serviços comunitários, pois assim é garantido que se cumpra.
Em grande parte das fundações, apesar de atenderem os adolescentes, o trabalho realizado torna o lugar uma mini cadeia, pois faltam profissionais capacitados para desempenhar o trabalho necessário e, aos que existem, a remuneração oferecida é totalmente incoerente com a função.

Sem contar que tudo isso, fundações, sentenças, medidas, são RESULTADOS e precisamos nos preocupar urgentemente com as CAUSAS.

Se o país não oferecer uma estrutura social AGORA para todos, o número de adolescentes infratores – assim como de adultos infratores – só aumentará e nunca haverá vagas suficientes em fundações ou presídios. A sociedade precisa “parir” pessoas melhores, seres humanos mais humanos e cidadãos mais cidadãos.

Essa é a ÚNICA medida que levará todos a um país sem violência – ou pelo menos com índices menores – onde o adolescente estará sendo adolescente e desfrutando de sua juventude e a sociedade estará progredindo rumo a um futuro cada vez mais próspero. 



quinta-feira, 11 de abril de 2013

Feliciano não me representa...nem quem tenha o mesmo caráter que ele!!!


O discurso “Feliciano não me representa”  tem sido o brasão das redes sociais há um bom tempo. Vejo várias postagens das mais criativas formas, vejo artistas mobilizados para protestar contra o mesmo, vejo uma infinidade de compartilhamentos de tudo que aparece a esse respeito, mas isso tudo me entristece.

Não que eu concorde em alguma coisa com as atitudes repugnantes e discriminatórias de quem deveria defender os direitos humanos, muito pelo contrário, tenho total repulsa a esse senhor. O que me deixa triste é ver o quão inacreditavelmente as pessoas são manipuladas.

Digo isso pelo seguinte: no exato momento que a notícia de que Feliciano renunciaria se os petistas condenados saíssem também, vi os comentários de muitas pessoas na minha timeline simplesmente desaparecerem. Agora, como posso eu criticar um dito criminoso e defender outros? Não estaria eu, seguindo essa linha de raciocínio, sendo hipócrita?
Não quero que isso fique registrado como um posicionamento partidário, porque não é. Mas me chamou muito atenção por ver pessoas que se dizem “ativistas” simplesmente calarem os dedos.

Enquanto posta-se vídeos de pregações falando que John Lennon foi assassinado pela vontade de Deus (o que me deixa profundamente e particularmente indignada) ou que Caetano fez pacto com o Diabo para fazer sucesso...enquanto se compartilham centenas de montagens criticando o valor do tomate, deixa-se de prestar atenção na questão da PEC 37, que caso seja aprovada, acarretará em um retrocesso “nunca visto antes na história desse país” – com o perdão do trocadinho. Em resumo, ela transfere um poder de investigação que hoje é do Ministério Público no que diz respeito aos nossos queridos políticos, entregando-o de bandeja para a força policial, olha que lindo. Se, e apenas SE as corporações fossem confiáveis, as pessoas não se corrompessem com tanta facilidade e as mazelas políticas não falassem mais alto que qualquer outra coisa no Brasil il il, isso TALVEZ desse certo, mas qualquer pessoa – por mais alienada que seja – consegue vislumbrar a catástrofe que isso representa.

Se hoje a impunidade já toma café na cozinha de Brasília (e de todo o resto do país), com a aprovação da PEC 37 ela entrará, deixará o sapato atirado na sala, colocará o pé em cima da mesinha e pedirá pro povo (sim, eu e você) servir um cafezinho.
Não quero, com isso, dizer que as manifestações não são válidas, muito pelo contrário, é esse o caminho. Mas é preciso que pare de se comprar o que a mídia vende e se preste atenção no que realmente acontece.

O que parece na repercussão e mobilização com a questão do Feliciano é, metaforicamente falando, aquela brincadeira de “olha lá um avião...hahaha...peguei seu lanche”. Precisamos evitar que nossos olhares sejam desviados do que realmente interessa.

Vamos reclamar sim que haja uma pessoa descente defendendo os direitos humanos, assim como reivindiquemos que um médico seja ministro da saúde, um professor ministro da educação, um administrador/gestor seja ministro do esporte, o ficha limpa seja definitivamente aplicado e não tenhamos mensaleiros (de partido nenhum) nos representando, partidos (inclusive o partido da presidência) não declarem em manifestos pela internet apoio a situações delicadíssimas de hostilidade entre outros países (e que quando o fizerem, assumam), dinheiro da união não vá para o exterior em forma de empréstimo para quem quer que seja e nem auxilie bilionários enquanto o povo é assolado por falta de estrutura na saúde/educação/segurança/saneamento básico/mobilidade urbana, etc., o tomate não seja o foco e sim a inflação descontrolada, Malafaia não ganhe prêmios, vagas em escolas e hospitais sejam mais importantes que vagas em estádios para Copa do Mundo e pessoas com formação superior sejam regra (e não exceção) – pois é só em um universo de profissionais educados e capacitados que o Brasil pode sonhar em ser diferente.

Tenho certeza que, em algum lugar, já postei a música Perfeição (Legião Urbana) devido ao seu conteúdo político, analítico e realista, mas deixo-a aqui novamente para lembrarmos que a mesma foi composta há duas décadas e ainda é atual, infelizmente. 

Vamos reivindicar, reclamar, gritar – por que não? – pelo todo. Enquanto o todo não for atendido, a parte não enxergará solução. 


domingo, 7 de abril de 2013

Chico, O livreiro.


Hoje, 07 de Abril de 2013, tive uma surpresa deliciosa ao assistir no programa Fantástico uma reportagem sobre Chico, um livreiro que há quase quarenta anos tem uma livraria na Universidade de Brasília e se tornou, no cenário acadêmico, uma referência para alunos e professores.

Ele mudou-se do Piauí para Brasília em um caminhão “pau de arara” e na capital federal passou a vender jornais. Lia-os sempre e, daí, surgiu a paixão pela leitura.

Quando questionado qual é o seu objetivo de vida ele responde com uma voz simplória: “conceituar o mundo através da leitura, do trabalho com os livros, sabe?”. Impressionante? Pois é, mas foi só o começo. Ele conhece as pessoas e quando chegam novidades na livraria sai pelos corredores avisando aos interessados. Como disse um dos professores: “ele é daqueles livreiros à moda antiga”.

Durante a reportagem ele cita vários nomes de autores que tem como ídolos, dentre eles ganhou autógrafos de Moacyr Scliar e de Ariano Suassuna, dedicatória personalizada de Cora Coralina e, como ele mesmo disse, teve “um dedinho de prosa” com José Saramago.

Enquanto assistia a reportagem fiquei pensando na maravilha que o Chico livreiro representa: um menino pobre que foi para a capital tentar uma vida melhor e encontrou uma riqueza que vale muito mais que qualquer valor financeiro, o amor pela LEITURA.

Dedicou a sua vida aos livros e, mais importante, a mostra-los às outras pessoas. Trabalha há quase quatro décadas em uma instituição responsável única e exclusivamente pela formação profissional e com ela a construção do conhecimento, e colabora diariamente com isso. Durante a reportagem um professor é questionado se ele é mais conhecido que o reitor, e o mesmo responde: “o reitor passa, e ele permanece”. O Chico livreiro tem um valor inestimável e não é só para sua família ou para universidade, é para o mundo.
Um homem simples e de fala mansa, mas que carrega dentro de si um baú com infinita cultura e sabedoria. Quantos desses existem? Poucos, pois aqui não falo da sabedoria acadêmico-científica, mas sim, de vida. De saber valorizar tudo e todos e desfrutar das coisas simples como se fossem as mais importantes – quem vai dizer que não são?!

Pois digo que o Chico livreiro deveria ser eterno, continuar para todo o sempre iluminando sua livraria com um sorriso largo e satisfeito, abraçando o cliente na despedida, indicando literaturas já conhecidas por ele, sabendo edições e editoras, valorizando cada vírgula escrita em papel velho e jamais deixando de saciar a sede de leitura de quem quer que seja.

Cita, ao fim da reportagem, Paulo Leminski. Pois eu termino aqui meu post citando o não menos importante e ilustre Chico livreiro: “Você só existe através da leitura, do conhecimento, da saúde e do amor ao próximo”.

E faço aqui eu também um agradecimento especial ao Chico, que me tirou de tantos posts de críticas e indignações para me dar de presente um assunto tão lindo sobre o qual escrever.

Muito obrigada!



quarta-feira, 3 de abril de 2013

O verso do dia...


Só pra ver se não perdi a prática
O post de hoje rimado será
Mas os assuntos se repetem
Até quando? Só Deus saberá
Quanto mais se aproximam de nós
Olimpíadas e Copa do Mundo
Mais vejo a imprensa tratando
O povo como moribundo
Povo que não pensa, não entende
Não questiona, não cobra
Povo que a política abandona
E a ele só a sorte é que sobra
A propaganda é de comunidade pacificada
Mobilidade urbana funcional
Segurança pública dominada
E um legado sobrenatural
Mas a realidade não tarda a chegar
Com patrimônios sendo destruídos
Escolas perdendo a importância
E os índios, coitados, desiludidos
Em uma mídia dominada e vendida
Nada disso é divulgado,
O que passa nos jornais
É assunto programado
Secretário dos Direitos Humanos
Ganhando foco principal nos ataques
Enquanto Renan Calheiros e companhia
Só se divertem preparam seus fraques
O espetáculo qual será
Para tão importante gala?
É o povo que está no palco
Mas não consegue dizer sua fala
Enquanto isso os cartolas
Corruptos e inescrupulosos
Aproveitam-se da ilusão do povo
E se tornam mais poderosos
“Viva essa energia” é a máxima
Dos anos que estão por vir
Mas depois de 2016
Quais as desculpas vamos ouvir?
Continuaremos sem transporte público,
Segurança, professores
Saneamento básico, saúde pública
Só com a ditadura dos opressores
O Brasil não precisa de eventos
Que não dá conta de promover
Maquiando uma realidade
Que cedo ou tarde há de aparecer
Precisa sim é que o seu povo sofrido
Por séculos de subdesenvolvimento
Seja enfim respeitado
E que dessa dívida tenha ressarcimento
Dívida com índios, com as mulheres
Com os negros e os homossexuais
Mas também com o pobre, o marginalizado
O violentado por causas banais
O desempregado, o que passa fome
O que não consegue estudar
O pai de família que apesar do esmero
Qualidade de vida aos filhos não consegue dar
O acadêmico que não tem vida
Para formação superior poder alcançar
O povo que sofre e chora
Por uma solução não conseguir vislumbrar
Mas continuamos firmes e fortes
Levantando e sacudindo a poeira
A cada vez que um corrupto
Nos dá mais uma rasteira
Um dia, quem sabe, isso mude
Enquanto isso nos cabe cobrar
E dos nomes que confirmamos nas urnas
Sempre, sem exceção, lembrar.



domingo, 24 de março de 2013

Sai de baixo, literalmente...


    Durante a semana vimos, mais uma vez, as tragédias causadas pelas chuvas em Petrópolis. Mais uma vez muitas mortes, mais uma vez muita gente sofrendo, mais uma vez famílias dizimadas, e o pior de tudo isso: mais uma vez as autoridades jogando a culpa igual peteca para ver quem deixa cair.
    É um descaso total com a dor das pessoas e uma prova cabal de que está muito longe de tudo isso mudar.
    Hoje, assistindo uma reportagem sobre o assunto, vi um prefeito jogando a culpa no Estado e na União e, em contra partida, o secretário do meio ambiente empurrando o assunto para a prefeitura. A ÚNICA concordância dos dois foi a seguinte afirmação: A culpa, em grande parte, é das pessoas que estão lá.
    NÃO É.
    As pessoas estão erradas em voltar para as suas casas em situação de risco? Estão, claro. Mas a indagação tem que ir mais longe. A real questão nisso tudo é: O que o poder público faz para dar o respaldo que essas pessoas precisam para recomeçar a vida? NADA.
    Conheço muito bem a situação. Apesar de, graças a Deus, nunca ter sido vítima direta de catástrofes dessa natureza, eu morava em Blumenau em Novembro de 2008, quando o Vale do Itajaí foi vitimado por uma tragédia nunca antes vista em Santa Catarina.
    As coisas foram acontecendo muito mais rápido do que conseguíamos entender e quando nos demos conta percebemos que muitas localidades foram atingidas por desabamentos, centenas de pessoas estavam desabrigadas, o abastecimento de água da cidade estava suspenso porque as estações de tratamento foram atingidas por desabamentos ou enchentes (ou os dois), e o caos estava instituído.
    Reconheço aqui o desmedido empenho da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros e da Cruz Vermelha, assim como o apoio imediato dos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, seguidos do Brasil todo. Eu e minha mãe dávamos aula em uma ONG situada em um dos bairros mais afetados, e assim que pudermos sair de casa (as pessoas ficaram quatro dias proibidas de sair de casa a não ser por uma emergência, para evitar maiores desgraças) fomos ver como a situação estava. Acabamos auxiliando da forma que conseguimos, mas o maior auxílio foi de uma equipe militar de Curitiba que incansavelmente cuidavam do abrigo garantindo a segurança e, acima de tudo, o companheirismo e a solidariedade a todos aqueles que precisavam.
    Narrei tudo isso para ilustrar que o que cabia aos civis, por assim dizer, foi feito. Adivinha o que falhou? O auxílio do poder público.
    Quase dois anos depois ainda existiam pessoas morando em abrigos ou em casa de familiares, sem receber nenhum tipo de subsídio ou apoio do governo. Muitas pessoas foram remanejadas sem nenhum planejamento para condomínios construídos para esse fim, ocasionando, por exemplo, uma superlotação nas escolas mais próximas e uma queda considerável na qualidade de ensino. Algumas (muitas, na verdade) pessoas acabaram voltando para as suas casas mesmo sabendo do grande risco corrido, pelo simples fato de ficarem esquecidas depois que o evento deixou de ser notícia.
    Tudo isso veio à tona hoje quando assisti, com grande repulsa, a politicagem de duas pessoas (prefeito e secretário) que não tem a mínima ideia do que é a dor de passar por traumas tão grandes.
    Não quero afirmar aqui que a população de forma geral é imune de responsabilidades. Não é. Constrói-se em encostas, se desrespeita determinação de Defesa Civil, etc., etc., etc. Mas onde está a fiscalização da secretaria de obras das cidades? Na reportagem que impulsionou o post de hoje vi um professor que coordena um estudo nos solos de Petrópolis há quatro anos. Como, COMO nada pode ter sido feito em todo esse tempo?
    Vi um homem ser entrevistado, homem esse que teve sua foto circulando nas redes sociais essa semana por já estar em Petrópolis há muitos anos atrás em outra tragédia. Ele estava lá, no mesmo lugar, vendo as mesmas calamidades. Na época tinha só vinte anos, mas agora perdeu a filha e os netos. Com a voz embargada contou: “os filhos acham que a gente é herói, mas numa hora dessas a gente vê que é tão pequeno”...
    Quando o Brasil terá uma política efetiva de prevenção para desastres naturais? Quando especialistas começarão a ser ouvidos ao invés de políticos sem nenhuma instrução ou propriedade sobre o assunto? Quando moradores de locais como a região serrana do Rio de Janeiro, o Vale do Itajaí, a cidade de São Paulo e diversas cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo poderão ficar tranquilos na temporada das chuvas? Quando os agricultores deixarão de sofrer em decorrência da falta de investimento e planejamento nas estiagens mais severas? Quando o Nordeste e o Centro-oeste deixarão de se preocupar com as queimadas que são, além de tudo, extremamente prejudiciais para o meio ambiente de forma geral?
    Enquanto todas essas perguntas não tiverem uma resposta objetiva o país continuará assistindo (alguns, inclusive, de camarote) o seu povo sofrer desmedidamente, e tendo esse sofrimento cada vez mais espezinhado por não vislumbrar, de maneira alguma, uma mudança no roteiro desse filme de terror. 




terça-feira, 19 de março de 2013

A violência que nem sempre salta aos olhos...

   Não escrevi domingo – dia que normalmente escrevo – porque tive que trabalhar. Como hoje estou de folga pensei: “opa, atualizarei o blog”. Mas fiquei vários momentos em frente ao computador sem saber o que escrever. Resolvi não insistir. Desliguei. Liguei. Nada. Desliguei. Liguei. Nada.
   Um pouco antes de sair de casa vi uma notícia que me fez pensar no que quero escrever. Não divulgarei o link porque desconheço a veracidade do fato, mas mesmo que a notícia em questão não seja verdadeira, é fato que isso acontece o tempo todo: a violência à criança e ao adolescente.
   Não quero escrever sobre a política – ou a falta dela – porque às vezes me sinto repetitiva. Quero escrever sobre o desaparecimento gradual da infância e o quanto isso me entristece.
   A notícia da qual falei era sobre um menino de cinco anos que foi encontrado, pelos vizinhos, prisioneiro dentro de um dos quartos da casa dos pais adotivos, com febre e cheio de hematomas. Essa é só mais uma das milhões de reportagens que circulam em todas as mídias o tempo todo.
   É, definitivamente, um ponto de reflexão. O que é feito a esse respeito? Cada vez mais os casos de violência (de todo tipo, por sinal) tem crescido desmedidamente. Os que mais chamam atenção, lógico, são os que envolvem espancamento, violência sexual e abandono, mas isso é porque temos o triste hábito de dar atenção apenas para situações extremas ao invés da raiz do problema.
   Não é apenas nas famílias desestruturadas, marginalizadas, de baixa renda e brindadas com qualquer rótulo que venha a calhar que a violência acontece; é o tempo todo.
   A meu ver, uma criança que passa o dia todo na frente do computador/videogame, alimentando-se mal e ficando obesa está sendo violentada. Uma criança que não tem participação dos seus pais em sua vida escolar está sendo violentada. Uma criança cujos pais não estabelecem qualquer diálogo que seja está sendo violentada. Uma criança que é responsabilizada de tudo que acontece em casa (normalmente dos problemas e preocupações) está sendo violentada. Uma criança que não tem uma rotina determinada pelo adulto da casa, onde tenha horário para dormir e acordar podendo ter uma boa noite de descanso e um dia produtivo, está sendo violentada. Uma criança que ganha um aparelho celular com acesso a internet, jogos, músicas e redes sociais ao invés de uma bola/chuteira/patins/bicicleta, adivinhem: está sendo violentada.
   Agora, como falei em um outro post, não estou mais em sala de aula, mas no ano em que trabalhei com adolescentes do 6º ano à 8ª série, em vários momentos me peguei pensando em qual tipo de formação eu, enquanto parte atuante de uma instituição social que é a escola, estava dando para aquelas centenas de adolescentes.
   Sabe-se falar hoje que o jovem não entende de política, não dá valor ao voto, não participa ativamente da sociedade, etc., etc., etc., mas qual é o espaço que esse jovem tem para aprender que isso é importante e que fará diferença em sua vida.
   As famílias estão cada vez mais preocupadas em adquirir bens e tecnologias desmedidamente. A questão financeira muitas vezes vira o centro de todas as preocupações. Em contrapartida, a escola está cada vez mais preocupada em cumprir currículos e dar conta de conteúdos programáticos e, por sua vez, acaba tendo a burocracia como o centro das atenções. Esse adolescente é duplamente violentado quando tem, na época mais importante de sua formação como cidadão, o boicote dos dois ambitos que deveriam o impulsionar.
   Certa vez adotei como avaliação semestral um debate envolvendo a 7ª e a 8ª série de uma das escolas em que lecionava. O tema eleito pelas turmas mediante votação foi “Pena de Morte”. Através de sorteio foi decidido qual turma seria contra e qual seria a favor do tema em questão. Após as definições, passamos a fazer uso de duas das cinco aulas de Português que as turmas tinham por semana para as atividades do debate. Os alunos mergulharam de cabeça, inclusive um garoto que tinha dezessete anos e estava na 8ª série e, claro, era o problema da escola. Ele se destacou de tal forma no debate, que jamais esquecerei inclusive o tom da sua voz.
   Os alunos pesquisaram em livros, revistas e – lógico – na internet, trouxeram textos, pontuaram, deram sua opinião, brigaram uns com os outros, gritaram, abandonaram grupos de discussões e depois retomaram, enfim, exerceram sua voz e sua vez. Assistimos inclusive os debates das eleições presidenciais de 2010 para entender seu funcionamento. Quando perguntei aos demais professores se poderiam me auxiliar e tornar a atividade um projeto interdisciplinar, a esmagadora maioria disse que não, que era uma perca de tempo e que eu estava fazendo isso só porque era nova...logo me desiludiria (nesse momento, eu é que me senti extremamente violentada). O professor de Informática e a professora de Matemática foram os únicos a me dar suporte e acabaram envolvendo-se também, assim como a coordenadora pedagógica e a diretora.
   Chegado o grande dia, montamos bancadas, telão com multimídia e compusemos a mesa dos jurados. Eu expliquei as regras e o debate começou. Cada grupo tinha dez argumentos defendendo seu ponto de vista. Para cada argumento eram destinados cinco minutos de exploração, três minutos de réplica e mais três de tréplica. Conforme iam debatendo eu me surpreendia cada vez mais com o altíssimo nível que aquela atividade alcançou. Nem eu imaginei que chegaria a tanto. Não precisei aplicar provas e nem dar trabalhos onde eles copiassem assuntos da internet e me entregassem. Não precisei dar prova de recuperação. Não precisei deixar nenhum, absolutamente NENHUM aluno daquelas turmas em exame aquele ano. De certa forma, aqueles alunos se tornaram inesquecíveis na minha vida e eu, quem sabe, na deles.
   Esse é o tipo de escola que forma um cidadão. Essa escola forma pessoas pensantes. Uma escola formadora de opinião forma formadores de opinião. Não, não existe redundância na sentença anterior, é a mais pura realidade.
   Quando a criança voltar a jogar bola na rua, ler os livros da biblioteca, brincar de STOP em casa depois do jantar, ver seus pais respeitando seus professores, temer pela reprovação e valorizar cada vez mais o aprendizado, conversar olhando nos olhos e não na tela de um computador, valorizar as pequenas coisas – e não as mais caras...a violência à infância diminuirá.
   Quando o adolescente voltar a construir suas relações no dia a dia, nas gargalhadas (e não no tal do hahahaha), quando tiver em seus pais os primeiros amigos (se os pais também nessa posição se colocarem), quando se envolverem em grupos estudantis, quando aprenderem a importância que o simples ato de escolher um candidato e dar seu voto a ele tem, quando voltarem a se respeitar uns aos outros e a valorizar seu sentimento e sua sexualidade, quando crianças pararem de terem crianças, quando as deficiências sociais pararem de arrancar os adolescentes da vida que deveriam ter e, acima de tudo, quando o jovem for respeitado mediante sua importância na sociedade...a violência à adolescência diminuirá.
   Quanto ao começo do post e a violência física, constante e palpável que acomete milhares, milhões de crianças e adolescentes, quero deixar claro que o assunto apenas impulsionou o que se seguiu depois. Se for para falar desse tipo de violência, não tem como não falar de uma sociedade falida e desrespeitosa, mentirosa e arrogante, prepotente e bajuladora, cheia de órgãos criados para dar cargo a quem interessa e não para resolver questões de determinadas “pastas”, cheia de políticas manipuladoras e de camuflagens surreais do que verdadeiramente acontece. Se um dia escreverei sobre? Certamente...mas não hoje. Não agora.

...

   Agora estou saudosa da infância de outrora. Como mesmo disse o maravilhoso Casimiro de Abreu: “Oh! que saudade que eu tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância queria / Que os anos não trazem mais! (...) (Meus oito anos).