domingo, 7 de abril de 2013

Chico, O livreiro.


Hoje, 07 de Abril de 2013, tive uma surpresa deliciosa ao assistir no programa Fantástico uma reportagem sobre Chico, um livreiro que há quase quarenta anos tem uma livraria na Universidade de Brasília e se tornou, no cenário acadêmico, uma referência para alunos e professores.

Ele mudou-se do Piauí para Brasília em um caminhão “pau de arara” e na capital federal passou a vender jornais. Lia-os sempre e, daí, surgiu a paixão pela leitura.

Quando questionado qual é o seu objetivo de vida ele responde com uma voz simplória: “conceituar o mundo através da leitura, do trabalho com os livros, sabe?”. Impressionante? Pois é, mas foi só o começo. Ele conhece as pessoas e quando chegam novidades na livraria sai pelos corredores avisando aos interessados. Como disse um dos professores: “ele é daqueles livreiros à moda antiga”.

Durante a reportagem ele cita vários nomes de autores que tem como ídolos, dentre eles ganhou autógrafos de Moacyr Scliar e de Ariano Suassuna, dedicatória personalizada de Cora Coralina e, como ele mesmo disse, teve “um dedinho de prosa” com José Saramago.

Enquanto assistia a reportagem fiquei pensando na maravilha que o Chico livreiro representa: um menino pobre que foi para a capital tentar uma vida melhor e encontrou uma riqueza que vale muito mais que qualquer valor financeiro, o amor pela LEITURA.

Dedicou a sua vida aos livros e, mais importante, a mostra-los às outras pessoas. Trabalha há quase quatro décadas em uma instituição responsável única e exclusivamente pela formação profissional e com ela a construção do conhecimento, e colabora diariamente com isso. Durante a reportagem um professor é questionado se ele é mais conhecido que o reitor, e o mesmo responde: “o reitor passa, e ele permanece”. O Chico livreiro tem um valor inestimável e não é só para sua família ou para universidade, é para o mundo.
Um homem simples e de fala mansa, mas que carrega dentro de si um baú com infinita cultura e sabedoria. Quantos desses existem? Poucos, pois aqui não falo da sabedoria acadêmico-científica, mas sim, de vida. De saber valorizar tudo e todos e desfrutar das coisas simples como se fossem as mais importantes – quem vai dizer que não são?!

Pois digo que o Chico livreiro deveria ser eterno, continuar para todo o sempre iluminando sua livraria com um sorriso largo e satisfeito, abraçando o cliente na despedida, indicando literaturas já conhecidas por ele, sabendo edições e editoras, valorizando cada vírgula escrita em papel velho e jamais deixando de saciar a sede de leitura de quem quer que seja.

Cita, ao fim da reportagem, Paulo Leminski. Pois eu termino aqui meu post citando o não menos importante e ilustre Chico livreiro: “Você só existe através da leitura, do conhecimento, da saúde e do amor ao próximo”.

E faço aqui eu também um agradecimento especial ao Chico, que me tirou de tantos posts de críticas e indignações para me dar de presente um assunto tão lindo sobre o qual escrever.

Muito obrigada!



quarta-feira, 3 de abril de 2013

O verso do dia...


Só pra ver se não perdi a prática
O post de hoje rimado será
Mas os assuntos se repetem
Até quando? Só Deus saberá
Quanto mais se aproximam de nós
Olimpíadas e Copa do Mundo
Mais vejo a imprensa tratando
O povo como moribundo
Povo que não pensa, não entende
Não questiona, não cobra
Povo que a política abandona
E a ele só a sorte é que sobra
A propaganda é de comunidade pacificada
Mobilidade urbana funcional
Segurança pública dominada
E um legado sobrenatural
Mas a realidade não tarda a chegar
Com patrimônios sendo destruídos
Escolas perdendo a importância
E os índios, coitados, desiludidos
Em uma mídia dominada e vendida
Nada disso é divulgado,
O que passa nos jornais
É assunto programado
Secretário dos Direitos Humanos
Ganhando foco principal nos ataques
Enquanto Renan Calheiros e companhia
Só se divertem preparam seus fraques
O espetáculo qual será
Para tão importante gala?
É o povo que está no palco
Mas não consegue dizer sua fala
Enquanto isso os cartolas
Corruptos e inescrupulosos
Aproveitam-se da ilusão do povo
E se tornam mais poderosos
“Viva essa energia” é a máxima
Dos anos que estão por vir
Mas depois de 2016
Quais as desculpas vamos ouvir?
Continuaremos sem transporte público,
Segurança, professores
Saneamento básico, saúde pública
Só com a ditadura dos opressores
O Brasil não precisa de eventos
Que não dá conta de promover
Maquiando uma realidade
Que cedo ou tarde há de aparecer
Precisa sim é que o seu povo sofrido
Por séculos de subdesenvolvimento
Seja enfim respeitado
E que dessa dívida tenha ressarcimento
Dívida com índios, com as mulheres
Com os negros e os homossexuais
Mas também com o pobre, o marginalizado
O violentado por causas banais
O desempregado, o que passa fome
O que não consegue estudar
O pai de família que apesar do esmero
Qualidade de vida aos filhos não consegue dar
O acadêmico que não tem vida
Para formação superior poder alcançar
O povo que sofre e chora
Por uma solução não conseguir vislumbrar
Mas continuamos firmes e fortes
Levantando e sacudindo a poeira
A cada vez que um corrupto
Nos dá mais uma rasteira
Um dia, quem sabe, isso mude
Enquanto isso nos cabe cobrar
E dos nomes que confirmamos nas urnas
Sempre, sem exceção, lembrar.



domingo, 24 de março de 2013

Sai de baixo, literalmente...


    Durante a semana vimos, mais uma vez, as tragédias causadas pelas chuvas em Petrópolis. Mais uma vez muitas mortes, mais uma vez muita gente sofrendo, mais uma vez famílias dizimadas, e o pior de tudo isso: mais uma vez as autoridades jogando a culpa igual peteca para ver quem deixa cair.
    É um descaso total com a dor das pessoas e uma prova cabal de que está muito longe de tudo isso mudar.
    Hoje, assistindo uma reportagem sobre o assunto, vi um prefeito jogando a culpa no Estado e na União e, em contra partida, o secretário do meio ambiente empurrando o assunto para a prefeitura. A ÚNICA concordância dos dois foi a seguinte afirmação: A culpa, em grande parte, é das pessoas que estão lá.
    NÃO É.
    As pessoas estão erradas em voltar para as suas casas em situação de risco? Estão, claro. Mas a indagação tem que ir mais longe. A real questão nisso tudo é: O que o poder público faz para dar o respaldo que essas pessoas precisam para recomeçar a vida? NADA.
    Conheço muito bem a situação. Apesar de, graças a Deus, nunca ter sido vítima direta de catástrofes dessa natureza, eu morava em Blumenau em Novembro de 2008, quando o Vale do Itajaí foi vitimado por uma tragédia nunca antes vista em Santa Catarina.
    As coisas foram acontecendo muito mais rápido do que conseguíamos entender e quando nos demos conta percebemos que muitas localidades foram atingidas por desabamentos, centenas de pessoas estavam desabrigadas, o abastecimento de água da cidade estava suspenso porque as estações de tratamento foram atingidas por desabamentos ou enchentes (ou os dois), e o caos estava instituído.
    Reconheço aqui o desmedido empenho da Defesa Civil, do Corpo de Bombeiros e da Cruz Vermelha, assim como o apoio imediato dos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, seguidos do Brasil todo. Eu e minha mãe dávamos aula em uma ONG situada em um dos bairros mais afetados, e assim que pudermos sair de casa (as pessoas ficaram quatro dias proibidas de sair de casa a não ser por uma emergência, para evitar maiores desgraças) fomos ver como a situação estava. Acabamos auxiliando da forma que conseguimos, mas o maior auxílio foi de uma equipe militar de Curitiba que incansavelmente cuidavam do abrigo garantindo a segurança e, acima de tudo, o companheirismo e a solidariedade a todos aqueles que precisavam.
    Narrei tudo isso para ilustrar que o que cabia aos civis, por assim dizer, foi feito. Adivinha o que falhou? O auxílio do poder público.
    Quase dois anos depois ainda existiam pessoas morando em abrigos ou em casa de familiares, sem receber nenhum tipo de subsídio ou apoio do governo. Muitas pessoas foram remanejadas sem nenhum planejamento para condomínios construídos para esse fim, ocasionando, por exemplo, uma superlotação nas escolas mais próximas e uma queda considerável na qualidade de ensino. Algumas (muitas, na verdade) pessoas acabaram voltando para as suas casas mesmo sabendo do grande risco corrido, pelo simples fato de ficarem esquecidas depois que o evento deixou de ser notícia.
    Tudo isso veio à tona hoje quando assisti, com grande repulsa, a politicagem de duas pessoas (prefeito e secretário) que não tem a mínima ideia do que é a dor de passar por traumas tão grandes.
    Não quero afirmar aqui que a população de forma geral é imune de responsabilidades. Não é. Constrói-se em encostas, se desrespeita determinação de Defesa Civil, etc., etc., etc. Mas onde está a fiscalização da secretaria de obras das cidades? Na reportagem que impulsionou o post de hoje vi um professor que coordena um estudo nos solos de Petrópolis há quatro anos. Como, COMO nada pode ter sido feito em todo esse tempo?
    Vi um homem ser entrevistado, homem esse que teve sua foto circulando nas redes sociais essa semana por já estar em Petrópolis há muitos anos atrás em outra tragédia. Ele estava lá, no mesmo lugar, vendo as mesmas calamidades. Na época tinha só vinte anos, mas agora perdeu a filha e os netos. Com a voz embargada contou: “os filhos acham que a gente é herói, mas numa hora dessas a gente vê que é tão pequeno”...
    Quando o Brasil terá uma política efetiva de prevenção para desastres naturais? Quando especialistas começarão a ser ouvidos ao invés de políticos sem nenhuma instrução ou propriedade sobre o assunto? Quando moradores de locais como a região serrana do Rio de Janeiro, o Vale do Itajaí, a cidade de São Paulo e diversas cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo poderão ficar tranquilos na temporada das chuvas? Quando os agricultores deixarão de sofrer em decorrência da falta de investimento e planejamento nas estiagens mais severas? Quando o Nordeste e o Centro-oeste deixarão de se preocupar com as queimadas que são, além de tudo, extremamente prejudiciais para o meio ambiente de forma geral?
    Enquanto todas essas perguntas não tiverem uma resposta objetiva o país continuará assistindo (alguns, inclusive, de camarote) o seu povo sofrer desmedidamente, e tendo esse sofrimento cada vez mais espezinhado por não vislumbrar, de maneira alguma, uma mudança no roteiro desse filme de terror. 




terça-feira, 19 de março de 2013

A violência que nem sempre salta aos olhos...

   Não escrevi domingo – dia que normalmente escrevo – porque tive que trabalhar. Como hoje estou de folga pensei: “opa, atualizarei o blog”. Mas fiquei vários momentos em frente ao computador sem saber o que escrever. Resolvi não insistir. Desliguei. Liguei. Nada. Desliguei. Liguei. Nada.
   Um pouco antes de sair de casa vi uma notícia que me fez pensar no que quero escrever. Não divulgarei o link porque desconheço a veracidade do fato, mas mesmo que a notícia em questão não seja verdadeira, é fato que isso acontece o tempo todo: a violência à criança e ao adolescente.
   Não quero escrever sobre a política – ou a falta dela – porque às vezes me sinto repetitiva. Quero escrever sobre o desaparecimento gradual da infância e o quanto isso me entristece.
   A notícia da qual falei era sobre um menino de cinco anos que foi encontrado, pelos vizinhos, prisioneiro dentro de um dos quartos da casa dos pais adotivos, com febre e cheio de hematomas. Essa é só mais uma das milhões de reportagens que circulam em todas as mídias o tempo todo.
   É, definitivamente, um ponto de reflexão. O que é feito a esse respeito? Cada vez mais os casos de violência (de todo tipo, por sinal) tem crescido desmedidamente. Os que mais chamam atenção, lógico, são os que envolvem espancamento, violência sexual e abandono, mas isso é porque temos o triste hábito de dar atenção apenas para situações extremas ao invés da raiz do problema.
   Não é apenas nas famílias desestruturadas, marginalizadas, de baixa renda e brindadas com qualquer rótulo que venha a calhar que a violência acontece; é o tempo todo.
   A meu ver, uma criança que passa o dia todo na frente do computador/videogame, alimentando-se mal e ficando obesa está sendo violentada. Uma criança que não tem participação dos seus pais em sua vida escolar está sendo violentada. Uma criança cujos pais não estabelecem qualquer diálogo que seja está sendo violentada. Uma criança que é responsabilizada de tudo que acontece em casa (normalmente dos problemas e preocupações) está sendo violentada. Uma criança que não tem uma rotina determinada pelo adulto da casa, onde tenha horário para dormir e acordar podendo ter uma boa noite de descanso e um dia produtivo, está sendo violentada. Uma criança que ganha um aparelho celular com acesso a internet, jogos, músicas e redes sociais ao invés de uma bola/chuteira/patins/bicicleta, adivinhem: está sendo violentada.
   Agora, como falei em um outro post, não estou mais em sala de aula, mas no ano em que trabalhei com adolescentes do 6º ano à 8ª série, em vários momentos me peguei pensando em qual tipo de formação eu, enquanto parte atuante de uma instituição social que é a escola, estava dando para aquelas centenas de adolescentes.
   Sabe-se falar hoje que o jovem não entende de política, não dá valor ao voto, não participa ativamente da sociedade, etc., etc., etc., mas qual é o espaço que esse jovem tem para aprender que isso é importante e que fará diferença em sua vida.
   As famílias estão cada vez mais preocupadas em adquirir bens e tecnologias desmedidamente. A questão financeira muitas vezes vira o centro de todas as preocupações. Em contrapartida, a escola está cada vez mais preocupada em cumprir currículos e dar conta de conteúdos programáticos e, por sua vez, acaba tendo a burocracia como o centro das atenções. Esse adolescente é duplamente violentado quando tem, na época mais importante de sua formação como cidadão, o boicote dos dois ambitos que deveriam o impulsionar.
   Certa vez adotei como avaliação semestral um debate envolvendo a 7ª e a 8ª série de uma das escolas em que lecionava. O tema eleito pelas turmas mediante votação foi “Pena de Morte”. Através de sorteio foi decidido qual turma seria contra e qual seria a favor do tema em questão. Após as definições, passamos a fazer uso de duas das cinco aulas de Português que as turmas tinham por semana para as atividades do debate. Os alunos mergulharam de cabeça, inclusive um garoto que tinha dezessete anos e estava na 8ª série e, claro, era o problema da escola. Ele se destacou de tal forma no debate, que jamais esquecerei inclusive o tom da sua voz.
   Os alunos pesquisaram em livros, revistas e – lógico – na internet, trouxeram textos, pontuaram, deram sua opinião, brigaram uns com os outros, gritaram, abandonaram grupos de discussões e depois retomaram, enfim, exerceram sua voz e sua vez. Assistimos inclusive os debates das eleições presidenciais de 2010 para entender seu funcionamento. Quando perguntei aos demais professores se poderiam me auxiliar e tornar a atividade um projeto interdisciplinar, a esmagadora maioria disse que não, que era uma perca de tempo e que eu estava fazendo isso só porque era nova...logo me desiludiria (nesse momento, eu é que me senti extremamente violentada). O professor de Informática e a professora de Matemática foram os únicos a me dar suporte e acabaram envolvendo-se também, assim como a coordenadora pedagógica e a diretora.
   Chegado o grande dia, montamos bancadas, telão com multimídia e compusemos a mesa dos jurados. Eu expliquei as regras e o debate começou. Cada grupo tinha dez argumentos defendendo seu ponto de vista. Para cada argumento eram destinados cinco minutos de exploração, três minutos de réplica e mais três de tréplica. Conforme iam debatendo eu me surpreendia cada vez mais com o altíssimo nível que aquela atividade alcançou. Nem eu imaginei que chegaria a tanto. Não precisei aplicar provas e nem dar trabalhos onde eles copiassem assuntos da internet e me entregassem. Não precisei dar prova de recuperação. Não precisei deixar nenhum, absolutamente NENHUM aluno daquelas turmas em exame aquele ano. De certa forma, aqueles alunos se tornaram inesquecíveis na minha vida e eu, quem sabe, na deles.
   Esse é o tipo de escola que forma um cidadão. Essa escola forma pessoas pensantes. Uma escola formadora de opinião forma formadores de opinião. Não, não existe redundância na sentença anterior, é a mais pura realidade.
   Quando a criança voltar a jogar bola na rua, ler os livros da biblioteca, brincar de STOP em casa depois do jantar, ver seus pais respeitando seus professores, temer pela reprovação e valorizar cada vez mais o aprendizado, conversar olhando nos olhos e não na tela de um computador, valorizar as pequenas coisas – e não as mais caras...a violência à infância diminuirá.
   Quando o adolescente voltar a construir suas relações no dia a dia, nas gargalhadas (e não no tal do hahahaha), quando tiver em seus pais os primeiros amigos (se os pais também nessa posição se colocarem), quando se envolverem em grupos estudantis, quando aprenderem a importância que o simples ato de escolher um candidato e dar seu voto a ele tem, quando voltarem a se respeitar uns aos outros e a valorizar seu sentimento e sua sexualidade, quando crianças pararem de terem crianças, quando as deficiências sociais pararem de arrancar os adolescentes da vida que deveriam ter e, acima de tudo, quando o jovem for respeitado mediante sua importância na sociedade...a violência à adolescência diminuirá.
   Quanto ao começo do post e a violência física, constante e palpável que acomete milhares, milhões de crianças e adolescentes, quero deixar claro que o assunto apenas impulsionou o que se seguiu depois. Se for para falar desse tipo de violência, não tem como não falar de uma sociedade falida e desrespeitosa, mentirosa e arrogante, prepotente e bajuladora, cheia de órgãos criados para dar cargo a quem interessa e não para resolver questões de determinadas “pastas”, cheia de políticas manipuladoras e de camuflagens surreais do que verdadeiramente acontece. Se um dia escreverei sobre? Certamente...mas não hoje. Não agora.

...

   Agora estou saudosa da infância de outrora. Como mesmo disse o maravilhoso Casimiro de Abreu: “Oh! que saudade que eu tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância queria / Que os anos não trazem mais! (...) (Meus oito anos).




domingo, 24 de fevereiro de 2013

A democracia da ditadura.

O assunto que quero abordar não me sai da cabeça há alguns dias, era sobre isso, inclusive, que eu escreveria ontem, mas quando a coisa tomou um rumo diferente deixei fluir. Quando estava escrevendo com certa frequência fazia mais ou menos um post por semana, não por nada específico, só por mania. Mas preciso escrever isso hoje... PRECISO.
Eu sou – e quem me conhece sabe bem – muito crítica a tudo que diz respeito ao Brasil. Não é porque nego minha nacionalidade e nem porque não gosto do meu país. Muito pelo contrário, amo meu país, amo ser brasileira, amo fazer parte de um povo que é tão bem quisto pelo mundo. As críticas que faço são tentando entender o porquê de haver tanta coisa errada acontecendo quando na minha cabeça é tudo tão claro.
Pois bem, eu já escrevi há tempos atrás sobre a questão das tais “cadeiras dos partidos” e o quanto elas burlam a nossa democracia (Democracia? Eu acho que não.), por isso não tem como pintar um quadro onde tudo é lindo e o Brasil é o país mais democrático do mundo... longe disso.
No entanto, podemos sim nos orgulhar de ter a liberdade de falarmos o que quisermos, de publicar nosso voto falando em quem e porque votamos, podemos fazer passeatas e reivindicações de todos os cunhos possíveis e imagináveis – exemplo disso foi a campanha FORA RENAN CALHEIROS que permeou a internet nas últimas semanas tendo milhões de assinaturas.
Essa liberdade de certo modo foi conquistada através dos anos e custou caro: repressão, exílios, censura de todas as formas de arte, jornais sendo fechados, muitas mortes na queda de braço da sociedade civil contra o “militarismo”, enfim, foi tudo muito difícil como qualquer conquista. Por tudo isso, pra mim o óbvio é que a liberdade de expressão fosse sempre valorizada e que o direito das pessoas de falar valesse sempre, acima de tudo.
Quero deixar bem claro que o que será escrito agora não tem NADA haver com a defesa de uma organização política e social que eu, por sinal, desconheço, mas sim com a forma que tratamos a liberdade de expressão aqui na nossa tal Pátria Amada Brasil. Eu fiquei e ainda estou abismada com a recepção dada à Yoani Sánchez e com o burburinho desde sua chegada. Como disse, não estou defendendo e nem criticando suas ideias e nem o regime de Cuba, até porque não posso falar disso com propriedade. O que me impressiona é a hipocrisia das mesmas pessoas que defendem a democracia e enchem o peito para falar que os grandes figurões do seu partido lutaram sem medir forças para garanti-la, barrarem o direito de falar de uma pessoa que está APENAS defendendo seus ideais. É a mesma coisa que faço aqui e que cada um faz onde quiser. O centro da questão não é ela estar certa, mas sim os brasileiros que tomaram essa postura repulsiva estarem errados.
Eu lembro perfeitamente que quando aconteceu o escândalo de Cesare Battisti e o então Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva vetou a extradição do mesmo, não houve nem 10% das manifestações das últimas semanas. Considerando que Sánchez é uma blogueira defendendo uma ideia e Battisti um assassino condenado à prisão perpétua em seu país, a mim parece óbvio qual deles não deveria estar no Brasil. No entanto, não é isso que vi na época e vejo hoje. Se alguém pudesse me explicar o porquê dessa discrepância de valores, eu agradeceria.
Eu me estendi mais do que deveria, mas é só porque realmente gostaria de entender porque as pessoas são tão influenciáveis pelo momento, pelos seus partidos políticos, pelos jornais vazios e discursos evasivos.
Se se defende o direito de falar, que TODOS possam. Se se defende o direito de manifestar, que TODOS possam. Mas é preciso tomar cuidado para que a minha manifestação não cale a voz do discurso do próximo.

Para encerrar, uma charge que achei muito pertinente:

** Yoani Sánchez por Maurício Ricardo.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Crise de criatividade?


Eu nem tinha me dado conta que já fazia mais de um ano que não escrevia... Abri o blog assim, só por abrir, olhei a data da última postagem (06/01/12) e pensei: “Meu Deus, como é que não tem um monte de ideia engasgada? Como é que não tem letras e palavras e frases e parágrafos e textos saindo pelos meus ouvidos?”
Foi então que entendi a resposta e não tem nada haver com crise de criatividade: o ser humano é conformista. Deixei novamente de dar aula devido à nossa (minha e do meu esposo) volta para Porto Alegre. Trabalho no comércio e estou ocupada praticamente da hora em que me levanto à hora em que vou dormir. Mas nos poucos momentos de tranquilidade em meio ao chimarrão, ou ao almoço, até mesmo no banho, volta e meia surge como um sininho nas ideias um assunto e penso: “poderia eu escrever sobre isso no blog?!”, e de repente, não mais que de repente, o ímpeto passa e não escrevo. Fiquei muito triste ao ver que tenho feito isso por um ano. Isso não se faz.
Sempre me preocupei – e ainda me preocupo – com a qualidade e sanidade dos meus pensamentos. E tenho uma convicção de que quando eles não são exteriorizados e nem tomam corpo, a mente atrofia, para de pensar. Neurose? Talvez, mas o que é a vida se não um amontoado delas dentro da nossa cabeça?
Acredito que uma ideia, quando é concebida, tem que logo nascer. Quem garante que as correntes filosóficas que tanto conhecemos; que Best Sellers aclamados e revoluções científicas e tecnológicas não aconteceram dessa forma?
Naqueles momentos de tranquilidade que falei logo acima, principalmente nos últimos tempos, eu quis falar sobre várias coisas, mas se for acumular tudo em um post só (tendo fazendo toda essa introdução sobre mim mesmo), os assuntos não teriam aqui a mesma clareza com que estão dispostos na minha cabeça. Então acho melhor ir por partes: primeiro me comprometer a voltar a escrever, e depois organizar minhas ideias em novos textos.
Nada de gavetas para não trair meu amado Paulo Freire, apenas uma ordem de pensamentos para que muito assunto não se perca e, com eles, a chance de uma abordagem a mais na rede para se somar com o monte de convicções que todo mundo tem de tudo.
E da forma mais inesperada, hoje, um sábado de Fevereiro, falei um pouco de mim...sem política, sem educação, sem um tema central...só eu. Simples assim. E quer saber, foi bom!





sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A estante dos livros!

Eu simplesmente ADORO o começo do ano. Não é pelo simples fato de estar de férias – apesar disso colaborar bastante – mas sim pelo frescor nas ideias.

Como de costume, fiz uma mega arrumação nos livros, revistas, materiais antigos da faculdade, enfim, uma revolução. A cada material que eu pegava era impossível apenas reorganizá-lo; eu tinha que abrir, ler, comentar, lembrar...uma delícia.

E cada vez que fazia isso pensava “nossa, isso seria legal levar pra sala (de aula) pra trabalhar dessa forma, ou daquela, ou de uma outra...olha essa literatura, que delícia...meu Deus, nem lembrava que tinha esse livro, meus alunos vão adorar...” e por aí vai.

Quando me dei conta já tinha anoitecido, e de toda a minha lista de afazeres, não saí do primeiro e mesmo assim fiquei muito realizada.

Por isso cada vez que paro e penso o porquê ainda sou professora diante de todas as dificuldades, a explicação não tem como ser dita; apenas sentida, entendida...encontrada na arrumação dos livros.

Infelizmente (ou felizmente, vai saber) o tempo só me permite fazer isso no começo do ano...mas quem sabe o acaso se encarrega de deixar que isso aconteça exatamente porque é tempo de reflexão, criação, motivação...

O que interessa é que a cada vez que penso em preparar uma aula, propor uma atividade, explicar algo, questionar, argumentar, fomentar, me sinto revigorada e cheia de disposição pra esse 2012 que me espera...que nos espera.

Para começar bem o ano deixo um poema de Carlos Drummond de Andrade, fantástico na sua simplicidade como toda a sua obra:

“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.”

(Mãos Dadas)